sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

"Há algo para eu comer?" (Lucas 24.41)


            É como se fosse mágica. Uma espécie de alquimia dos sabores. O chef convida alguns ingredientes para uma dança. Ao som inconfundível das panelas, os frutos da terra vão encontrar-se para encantar-nos. A receita – palavras num papel – vai virar uma gostosa obra de arte. Comer é a sagrada alegria dos que entram na festa do apetite: comemos para alimentar-nos, e alimentamo-nos pelo comer, para o comer e com o comer.

            Cada prato tem sua magia. É fruto do olhar. Tem a ver com sentimentos, lembranças e sonhos. À mesa viajamos sem sair do lugar. Antes mesmo de levar a comida à boca, o olfato já se deliciou, brincou. É seu atrevimento característico, como num pequeno protesto por estar o nariz sempre um pouco à frente da boca, quase um corpo independente (principalmente em alguns casos peculiares...).

            Gosto de observar pessoas cozinhando. É pura realidade injetada de imaginação. Utensílios e mãos mesclam-se aos alimentos gerando realidades comestíveis alternativas. Mágica! A poética da mistura traz seus frutos com suas cores e formas (e os sugestionamentos derivados dessas formas – a erótica dos contornos – a banana fala por si...). Esse abracadabra gastronômico é pródigo em êxtases. A fumaça que vem da cozinha, rápida, faz o suspense do show: o prato surge!

            Ouso dizer que a comida tem vida própria: cor, sabor, cheiro, atração e sedução – inclusive som! Basta ouvir o crepitar, o fritar ou o descascar para que o paladar comece a ansiar pelo que irá degustar, apreciar ou descartar. A refeição é essencialmente espera, ação e reação. É um convite à filosofia do prazer e do belo, do encantamento e da posse. Mesmo quando a refeição desagrada ou a comida estraga, a reflexão permanece – somos perecíveis ao tempo, também esfriamos como um prato esquecido no forno.

            Que os magos de todos os sabores nunca parem de criar. A fome sempre existirá: de comida e de sonhos. De arte. Nunca vai faltar aquele olhar deslumbrado, aquela sensação do paraíso e aquele prato... Ah! Aquele prato! Não é por acaso que o crente é famoso por comer bem... Fazendo eco da pergunta de Jesus: "Há algo para eu comer?"
            Bom apetite!

           Até mais...
           Alan Brizotti


Um comentário:

  1. Mas nosso apetite na palavra de Deus, jamais será um prato frio se o mantermos sempre nas escrituras sagradas e como complemento a palavra do pastor Alan Brizotti.

    Me lembrei da minha avó pastor, sempre que ela nos servia leite com farinha, tinha um cheiro maravilhoso, mas quando colocávamos na boca não tinha açúcar! Hoje busco esse sabor mas não consigo sentir o mesmo aroma e sabor. Aquele leite com farinha da minha avó mesmo sem açúcar era doce e muito especial. Senti muitas saudades dela! Obrigada pela Palavra pastor!

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