sábado, 14 de janeiro de 2012

O efeito Sodoma: sobre uma tragédia familiar (Ez. 16.49, 50 e Gn. 18.16-20)


Sodoma é aqui! Nem toda prosperidade é sinal de bênção. Sodoma é considerada pelos mestres judeus como “a mais pecaminosa das cidades”. Ela tem sido eleita ao longo dos séculos como cidade da sexualidade desvairada. Isso é apenas parte da verdade – ela tornou-se a capital mundial do egoísmo.

A expressão "Sodoma e Gomorra" se aplica, por extensão, às cinco cidades-estado do Vale de Sidim, no Mar Morto. Eram elas: Sodoma, Gomorra, Admá, Zebolim e Bela (também é chamada de Zoar).

O Vale de Sidim ("Vale dos Campos") era descrito como um lugar paradisíaco. Ocupava uma área aproximadamente circular no vale inferior do Mar Morto. A região é chamada em hebraico de Kikkár que significa "bacia". A pequena península na margem oriental do Mar Morto, é chamada em árabe de El-Lisan que significa "a língua". Desde a península de El-Lisan ao extremo sul, se estenderia o Vale de Sidim. O seu fundo registra uma profundidade de 15 a 20 metros, enquanto para norte da península, o fundo desce rapidamente para uma profundidade de 400 metros.

Vamos observar alguns aspectos terríveis da vida em Sodoma:

O Midrash (um dos "ramos" da exegese judaica) está repleto de ilustrações da depravação moral reinante na cidade que se tornou a capital mundial – e cósmica – do crime.

Promiscuidade: Diz o Midrash que, uma vez por ano, eles se reuniam em determinado lugar para celebrar seu direito ao prazer desenfreado. Até os hedonistas mais ferrenhos considerariam exageradas as orgias:

Pais dormiam com as próprias filhas. Maridos – com o consentimento das eposas – tomavam emprestado, por uma hora ou uma noite, as mulheres dos amigos, e tudo isso ocorria publicamente!

Ódio: Eles odiavam estrangeiros. Quem entrasse em Sodoma podia facilmente morrer de fome: os habitantes locais lhe vendiam ou até davam qualquer coisa, menos alimento. Havia também uma tortura ao estilo de Procusto – era a “Cama de Sodoma” – Midat Sdom.

Pior de tudo: diziam agir em conformidade com a lei local. Seus atos eram aprovados por seus tribunais. O Midrash diz que havia quatro ou cinco juízes, seus nomes: Homem do Engano, Homem da Falsidade, Cabeça dos Mentirosos.

Uma lei aprovada em Sodoma: “Todo aquele que alimentar o pobre e faminto com um pedaço de pão, será queimado no fogo” (Pirkê De Rabi Eleizer 2:5) Uma lei de contenção da imigração.
Intrigante é que não foi a desobediência às leis que transformou Sodoma em um símbolo; pelo contrário, foi exatamente a obediência cega! Não por acaso, a obediência cega ainda é desculpa para crimes hediondos como o Holocausto. A obediência à lei foi o argumento utilizado por cada um dos criminosos nazistas processados: “só estava cumprindo ordens”.

Sodoma aniquilava forasteiros: toda viagem até Sodoma era só de ida. Podia-se entrar, mas não sair!

Em Sodoma, qualquer sombra de solidariedade era condenada à morte. Cada um se fortificou por trás da muralha das leis e tornou o bem-estar material seu objetivo supremo. A lei – ao lado de seus cidadãos – os protegia do incômodo despertar das consciências.

O Tratado San’hedrin 109 fala sobre a punição a Plotit, filha de Ló, casada com um dos poderosos da cidade. Segundo o Tratado, ela apiedou-se de um moribundo e, escondendo alimentos em seu cântaro, o ajudou. Quando as autoridades viram que o homem, ao invés de morrer, engordava, investigaram e descobriram os atos de Plotit. Sua punição: lambuzaram seu corpo com mel e lançaram-na às abelhas, e elas a picaram até à morte.

Não por acaso, o texto que trata de Sodoma está ao lado do que expõe a extraordinária hospitalidade desinteressada de Abraão.

Riquezas: A teoria principal gerada pela economia sodomita era a de que o outro, pela sua própria existência, atinge meu espaço vital – é um risco!

No Tratado de San’hedrin 109, está escrito: “Pois assim começou sua decadência: os homens de Sodoma não se orgulhavam de outra coisa senão da fartura e da riqueza que possuíam por influência divina. E eles diziam: ‘se de nossa terra tiramos pão e minério de ouro, para quê precisamos dos forasteiros? Não necessitamos que venha a nós qualquer pessoa, pois vem apenas para tomar o que é nosso. Apaguemos, pois, de nossa terra as leis e costumes de ir e vir’”.

Sodoma sacrificou o coração em nome da prosperidade! Nas casas suntuosas soprava o vento gélido do egoísmo. Nas camas aconchegantes dormia o monstro da indiferença. Sua maldade não nascia das carências, mas da vontade doentia de preservar suas riquezas a todo custo – inclusive ao custo de vidas! Segundo o Midrash, eles alagavam as entradas da cidade, pois como seu solo era rico em ouro, dificultavam ao máximo a entrada de exploradores.

Quais lições podemos tirar dessa cidade e sua tragédia?


1. De que adianta a riqueza e a prosperidade quando Deus está ausente?

Deus, para falar com Abraão, basta chamá-lo fora da tenda. Quando Deus vai visita-lo, é recebido com o melhor da comida e das ofertas: estava em casa! Já em Sodoma, Deus é qualificado como o “forasteiro repugnante” – o outro terrível.

Ló, em flagrante contraste com os homens da cidade, é bondoso e hospitaleiro, e ainda defende seus visitantes da fúria dos cidadãos. Deus nunca fica sem testemunho na história. Sempre há alguém para defender os propósitos divinos. Sua família é assim?

Não é o ouro, a casa, o carro que testemunham de nossa prosperidade – mas a Presença de Deus gerando a alegria do ter e do ser. É o princípio de Jó: Deus também toma! (“Deus deu, Deus tomou” Jó 1. 21)

Pegue todas as suas posses e consagre a Deus. Tire seu coração das coisas, e ame ao Senhor de toda tua alma.


2. É na família que a ação de Deus na história acontece

Essa é uma história trágica cujo núcleo principal onde se desenrolam os fatos é uma família: a família de Ló.

Ele um pai controverso: oferece as próprias filhas a homens devassos e maus. Costumamos ficar escandalizados com essa atitude, contudo, pais ainda fazem a mesma violência hoje, quando não dão limites aos filhos, deixando-os livres no perigoso território da sexualidade distorcida de hoje.

A mulher de Ló é um capítulo à parte nessa tragédia: ela faz parte da destruição da cidade, fora da cidade, no caminho! É destruída na fuga, por causa da desobediência à lei de Deus. Obedecia às leis de Sodoma, mas não à voz de Deus.

Ela representa a igreja que parou no tempo, cujo coração mora no passado (estátua de sal) – em suas posses! Olhar para trás era algo que a Antiguidade julgava com rigor! O Midrash diz que foi por causa dela que os habitantes locais ficaram sabendo da presença de estrangeiros em seu meio. Segundo o Midrash, ela foi pedir sal na vizinhança para preparar alimento para os visitantes, o que despertou a curiosidade dos sodomitas. Despreparada, revelou o segredo divino. Como na época, a punição se adequeva ao crime – por falta de sal ela atiçou a ira dos sodomitas, em sal transformou-se pela eternidade!

Como estão as relações na sua casa? Como está o coração de sua mãe?


3. Da tragédia Deus pode trazer a esperança

Na continuação do texto (Gn. 19. 30-38), as filhas de Ló embebedam seu pai e deitam-se com ele para engravidarem. As duas concebem. Seus filhos são chamados Moabe, uma expressão hebraica cujo sentido é “do pai” e Ben-Ami que significa “filho do meu povo”.

Quanto mais nos aprofundamos nessa história, mais parece que as tragédias acontecem.
Entretanto, é daqui que começa a surgir a Redenção. Da linhagem de Moabe vai surgir Rute – a moabita (Rt. 1. 4). Da linhagem de Rute vai surgir ninguém menos do que o rei Davi (Mt. 1. 5, 6). Da linhagem de Davi virá o Messias – o restaurador das famílias!

Não há tragédia familiar ou histórica para a qual Deus não tenha a esperança, o milagre, a redenção. Se Deus ainda não está em sua casa, é tempo de convite e aceitação. A graça da Presença pode revolucionar a história das tragédias familiares.

Deus em casa é a redenção da história familiar.

Até mais...
Alan Brizotti


1 comentários:

  1. Fora ainda que os moabitas eram um povo maldiçoado por Deus, e Ruth uma moabita escolheu seguir e adoral o Deus eterno e criador de todas as coisas

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