
Cristianismo sem alegria é contradição. Poucas pessoas são tão tristes quanto às religiosas. Luiz Sayão diz que “Se o Islamismo tem xiita, o cristianismo tem chaato”.
Phyllis McGinley disse algo provocativo: “Já li que durante o processo de Canonização, a Igreja Católica exige prova de alegria no candidato, e embora não tenha ainda conseguido descobrir capítulo e versículo, gosto da sugestão de que cara macambúzia não é atributo sagrado”.
Sei que nem sempre a gente consegue sorrir. Aliás, sorrir não é sinônimo da verdadeira alegria. Contudo, a Bíblia tem um padrão: (Sl. 30.5) – o choro é a possibilidade, mas a alegria é a certeza!
Ainda há crentes que vivem sob a ditadura da cara fechada. Qualquer alegria que experimente vem tatuada de suspeita. Ellen Glasgow, em sua autobiografia, disse sobre seu pai, que era um presbítero muito rígido: “Em toda a sua longa vida, ele nunca cometeu um prazer”.
Ser cristão é ser alegre: do paraíso de Adão ao domingo da ressurreição, a alegria tem sido como pinceladas de Deus preenchendo de cores as telas vazias da vida.
Vamos refletir sobre alguns aspectos da alegria à luz desse magnífico Salmo:
1. A alegria é característica fundamental da peregrinação do povo de Deus
O Salmo diz: “nós rimos, nós cantamos”: apesar das esquinas tristes e das tardes cinza, a igreja caminha no chão da alegria.
A enorme indústria do entretenimento é um sinal do esvaziamento da alegria em nossa cultura – bem que o Ultraje a rigor detectou em 1983: “a gente somos inúteo”. A vida cristã precisa testificar da alegria – mostrar ao mundo os conteúdos que nos preenchem. Foi dito sobre Hasid Levi Yitzhak de Berditchev que “seus sorrisos eram cheios de maior significado que seus sermões”.
Não por acaso, a sentença central do Salmo é: “nós somos um povo feliz”. Somos?
2. A alegria do povo de Deus tem base na história
No texto, as palavras dos versos 1 e 2 estão no passado; as palavras dos versos 4 a 6 estão no futuro: isso sinaliza para a extraordinária verdade de que a nossa alegria tem passado, presente e futuro. Não é uma emoção efêmera (do grego, reméra: dia. O efêmero é aquele êxtase que dura pouco, dura um dia apenas...).
O texto trata a alegria como testemunha da história: “Quando Deus fez voltar os cativos...” Essa frase repleta de alegria faz acordar vastas memórias – a alegria tem uma história, e geralmente é uma história de vitória sobre o pranto. Essa certeza do futuro é magistral, pois nos convoca à reflexão: se no passado Deus agiu – e Deus não muda – Ele certamente continuará comigo. A certeza do Salmo – e a nossa – é que o que conhecemos de Deus, conheceremos de Deus!
O texto registra o clamor: “Traga chuva!” O Neguebe, ao sul de Israel, é um vasto deserto. Os cursos de água do Neguebe são uma rede de valas cortadas no solo por erosão do vento e da chuva. Durante a maioria do ano ficam ressecados sob o sol, mas uma chuva repentina faz o deserto brilhante de flores. Nossas vidas são assim, ressequidas, de repente, os longos anos de espera e esterilidade são graciosamente interrompidos pela invasão do amor de Deus.
O nome disso é alegria na história das nossas vidas! Tempo de cantar...
3. A alegria do povo de Deus desafia as crises, e triunfa!
3. A alegria do povo de Deus desafia as crises, e triunfa!
Ela não é produto da ilusão midiática que finge não ver as rugas na face da alma.
Fica claro no Salmo 126 que tanto quem escreveu quanto aqueles que o cantaram não desconheciam o lado sombrio das coisas. Levavam a memória dolorida do exílio em seus ossos e as cicatrizes da opressão em suas costas. Conheciam os desertos do coração e as noites de choro. Sabiam muito bem o que significava “semear em lágrimas”.
O riso não exclui o choro. Ambos dão seu espetáculo no mesmo palco – meu rosto! Ambos habitam o mesmo camarim – meu coração! A alegria não é um escape da tristeza. A dor e o sofrimento não conseguem expulsar a alegria, pois ela vem junto com a minha história de redenção! (Não por acaso as máscaras no teatro antigo já apontavam para isso – a tragédia e a comédia coexistem).
Uma estratégia comum, mas fútil para se conseguir alegria, segundo a mentalidade banalizada de hoje, é eliminar coisas que machucam: livrar-se da dor anestesiando as extremidades do nervo; livrar-se da insegurança eliminando os riscos – e com isso, fazer as malas e ir morar na região apertada da mediocridade, onde a vida é insossa e a mira é baixa.
Uns preferem acabar com os desapontamentos despersonalizando as relações (controle, ciúme). Outros tentam suavizar a monotonia de suas vidas comprando pequenas doses de alegria na forma de férias ou entretenimento. O Salmo 126, nem de longe, menciona isso – é alegria que desafia as crises e triunfa!
Nossa alegria tem passado: seu solo é fortalecido pelas memórias dos atos de Deus.
Nossa alegria tem futuro: seus olhos estão focados para além do palco, na bendita esperança das promessas de Deus.
Até mais...
Alan Brizotti
Feliz Ano Novo!
