terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Uma reflexão sobre a alegria (Salmo 126)


Cristianismo sem alegria é contradição. Poucas pessoas são tão tristes quanto às religiosas. Luiz Sayão diz que “Se o Islamismo tem xiita, o cristianismo tem chaato”.

Phyllis McGinley disse algo provocativo: “Já li que durante o processo de Canonização, a Igreja Católica exige prova de alegria no candidato, e embora não tenha ainda conseguido descobrir capítulo e versículo, gosto da sugestão de que cara macambúzia não é atributo sagrado”.

Sei que nem sempre a gente consegue sorrir. Aliás, sorrir não é sinônimo da verdadeira alegria. Contudo, a Bíblia tem um padrão: (Sl. 30.5) – o choro é a possibilidade, mas a alegria é a certeza!
Ainda há crentes que vivem sob a ditadura da cara fechada. Qualquer alegria que experimente vem tatuada de suspeita. Ellen Glasgow, em sua autobiografia, disse sobre seu pai, que era um presbítero muito rígido: “Em toda a sua longa vida, ele nunca cometeu um prazer”.

Ser cristão é ser alegre: do paraíso de Adão ao domingo da ressurreição, a alegria tem sido como pinceladas de Deus preenchendo de cores as telas vazias da vida.

Vamos refletir sobre alguns aspectos da alegria à luz desse magnífico Salmo:

1. A alegria é característica fundamental da peregrinação do povo de Deus

O Salmo diz: “nós rimos, nós cantamos”: apesar das esquinas tristes e das tardes cinza, a igreja caminha no chão da alegria.

A enorme indústria do entretenimento é um sinal do esvaziamento da alegria em nossa cultura – bem que o Ultraje a rigor detectou em 1983: “a gente somos inúteo”. A vida cristã precisa testificar da alegria – mostrar ao mundo os conteúdos que nos preenchem. Foi dito sobre Hasid Levi Yitzhak de Berditchev que “seus sorrisos eram cheios de maior significado que seus sermões”.

Não por acaso, a sentença central do Salmo é: “nós somos um povo feliz”. Somos?

2. A alegria do povo de Deus tem base na história

No texto, as palavras dos versos 1 e 2 estão no passado; as palavras dos versos 4 a 6 estão no futuro: isso sinaliza para a extraordinária verdade de que a nossa alegria tem passado, presente e futuro. Não é uma emoção efêmera (do grego, reméra: dia. O efêmero é aquele êxtase que dura pouco, dura um dia apenas...).

O texto trata a alegria como testemunha da história: “Quando Deus fez voltar os cativos...” Essa frase repleta de alegria faz acordar vastas memórias – a alegria tem uma história, e geralmente é uma história de vitória sobre o pranto. Essa certeza do futuro é magistral, pois nos convoca à reflexão: se no passado Deus agiu – e Deus não muda – Ele certamente continuará comigo. A certeza do Salmo – e a nossa – é que o que conhecemos de Deus, conheceremos de Deus!

O texto registra o clamor: “Traga chuva!” O Neguebe, ao sul de Israel, é um vasto deserto. Os cursos de água do Neguebe são uma rede de valas cortadas no solo por erosão do vento e da chuva. Durante a maioria do ano ficam ressecados sob o sol, mas uma chuva repentina faz o deserto brilhante de flores. Nossas vidas são assim, ressequidas, de repente, os longos anos de espera e esterilidade são graciosamente interrompidos pela invasão do amor de Deus.
O nome disso é alegria na história das nossas vidas! Tempo de cantar...

3. A alegria do povo de Deus desafia as crises, e triunfa!

Ela não é produto da ilusão midiática que finge não ver as rugas na face da alma.

Fica claro no Salmo 126 que tanto quem escreveu quanto aqueles que o cantaram não desconheciam o lado sombrio das coisas. Levavam a memória dolorida do exílio em seus ossos e as cicatrizes da opressão em suas costas. Conheciam os desertos do coração e as noites de choro. Sabiam muito bem o que significava “semear em lágrimas”.

O riso não exclui o choro. Ambos dão seu espetáculo no mesmo palco – meu rosto! Ambos habitam o mesmo camarim – meu coração! A alegria não é um escape da tristeza. A dor e o sofrimento não conseguem expulsar a alegria, pois ela vem junto com a minha história de redenção! (Não por acaso as máscaras no teatro antigo já apontavam para isso – a tragédia e a comédia coexistem).

Uma estratégia comum, mas fútil para se conseguir alegria, segundo a mentalidade banalizada de hoje, é eliminar coisas que machucam: livrar-se da dor anestesiando as extremidades do nervo; livrar-se da insegurança eliminando os riscos – e com isso, fazer as malas e ir morar na região apertada da mediocridade, onde a vida é insossa e a mira é baixa.

Uns preferem acabar com os desapontamentos despersonalizando as relações (controle, ciúme). Outros tentam suavizar a monotonia de suas vidas comprando pequenas doses de alegria na forma de férias ou entretenimento. O Salmo 126, nem de longe, menciona isso – é alegria que desafia as crises e triunfa!

Nossa alegria tem passado: seu solo é fortalecido pelas memórias dos atos de Deus.
Nossa alegria tem futuro: seus olhos estão focados para além do palco, na bendita esperança das promessas de Deus.
Até mais...
Alan Brizotti
Feliz Ano Novo!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Como está a nossa luz? (Mt. 5. 13-16)


“Vocês são a luz do mundo e o sal da terra”: estamos diante de uma declaração notável que define a natureza do cristão. Sal e luz são elementos que existem para gastar-se. Elementos básicos à vida humana. Inconfundíveis.

Jesus disse para um grupo de homens simples, insignificantes do ponto de vista da sociedade da época: “vocês são a luz do mundo”: isso sinaliza para uma abençoada verdade: não há insignificantes nos planos de Deus.

Martin Lloyd-Jones refletindo sobre esse texto disse que “o perigo constante é que leiamos uma declaração como essa e fiquemos pensando em alguma outra pessoa, como os cristãos primitivos, ou o povo evangélico em geral. Porém, se realmente nos consideramos cristãos, é a nós que as palavras do texto se referem”.

O chamado de Jesus ainda nos atinge: somos ou fingimos ser? Esse texto é um convite à ação.

Vamos refletir sobre algumas lições que aprendemos nesse texto:

I. Precisa existir diferença entre o cristão e o mundo

Sal e luz são elementos óbvios, nem precisam de ilustração. É evidente que façamos diferença. O mundo espera de nós que sejamos tão diferentes quanto a luz e as trevas! Nesse texto há uma séria advertência: quando agimos de forma contrária à nossa natureza nos tornamos ridículos: sal sem sabor e luz sem brilho. Comunidade do absurdo.

Quando ocultamos nossa natureza regenerada nos tornamos completamente inúteis. O verdadeiro crente não se oculta, nem pode deixar de ser notado. É de sua natureza destacar-se, pois é como “uma cidade edificada sobre um monte”. Esse texto desmonta o chamado “cristianismo nominal”, o formalismo dogmático sem razão de ser.

Dietrich Bonhoeffer disse que “refugiar-se no invisível é uma negação do chamado, uma comunidade de Jesus que procura esconder-se deixou de segui-lo”.

II. Não podemos nos esquecer que existem responsabilidades nessa diferença

Jesus afirmou categoricamente: “vocês são”: não podemos falhar! Há outra advertência implícita no texto: assim como acontece com o sal, também é com a luz: se o sal pode perder a salinidade, a luz pode transformar-se em trevas (Mt. 6. 23: “se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes são tais trevas!”).

Próximo de onde Jesus ministrou esse sermão havia a comunidade dos essênios, que se intitulava “os filhos da luz”, mas não tomava providência alguma para que sua luz brilhasse. Ocultos em seu gueto, seu sal era tão inútil quanto os depósitos de sal no Mar Morto ali bem perto. W D Davies diz que Jesus pensava neles quando ministrava essa palavra!

Nossa responsabilidade é dupla: denúncia e proclamação: o sal arde e a luz pode cegar e queimar! Helmut Thielicke escreveu: “Jesus não disse ‘vocês são o mel do mundo’, mas o sal”. Como está a nossa missão? Note que Jesus primeiro fala sobre o sal, depois sobre a luz: é um exemplo da atividade da igreja: primeiro arde, depois ilumina!

A luz não somente dissipa as trevas, também revela suas causas. João 3. 19 é brutal: “os homens amaram mais as trevas do que a luz”. A nova natureza em Cristo precisa fazer o homem amar mais a luz do que as trevas. Helmut Thielicke disse que “o sal e a luz têm uma coisa em comum: eles se dão e se gastam, e isto é o oposto do que acontece com qualquer tipo de religião egocentralizada”.

É preciso ser como João Batista que, segundo João 5. 35: “ardia e iluminava”.
III. Cuidado com o perigo da inversão

Inversão é quando adoramos a lâmpada e não a luz. Jesus disse em João 8. 12 e 9. 5: “Eu sou a luz do mundo”. Por derivação nós também somos, pois brilhamos com a luz de Cristo no mundo, como astros à noite, como disse Paulo aos Filipenses 2. 15: “para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus imaculados no meio de uma geração corrupta e perversa, entre a qual resplandeceis como luminares no mundo”.

O mundo sempre esteve nas trevas do auto-engano. O mundo nunca se cansou de enfatizar sua própria luz: a Renascença (séc. 15 e 16) ou o Iluminismo (séc. 18), o chamado “século das luzes”, são exemplos de impulsos culturais auto-intitulados de “luz”.

Curioso é que à medida que cresce o conhecimento tecnológico, o existencial definha. Ainda carecemos – e muito – de conselhos amorosos e cursos para casais, porque não sabemos viver!
A luz de Jesus vai além do saber – vai até o âmago do ser. Ela mescla perfeitamente o ser, o saber e o fazer, para desembocar no viver (João 10. 10: “vida em abundância”).

Para não cairmos no labirinto das inversões precisamos de duas coisas: humildade e consciência do limite: numa lâmpada antiga, somente duas coisas eram necessárias: azeite e pavio!
Azeite é unção. Pavio é humanidade! Limite! O pavio necessitava de cuidados, reparos. Era preciso aparar sua ponta para que não fizesse fumaça demais.

Aparar o pavio é cultivar a memória e a ação sobre as bem-aventuranças que abrem o Sermão do Monte: humildade, mansidão, misericórdia, paz, pureza de coração! É preciso humildade para atuar como luz sem ostentação nem exibicionismo. Por isso Jesus acrescenta: “para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai”: a glória da luz não é nossa! É preciso compaixão: gastar o pavio por amor aos que estão em trevas.

Somos chamados a sermos “cópias de Cristo”: assim como ele iluminou a história, assim também devemos brilhar: Mt. 5. 16: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus”.
Até mais...
Alan Brizotti



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