quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Obras da carne: prostituição, a deturpação do respeito


Quando Paulo lista as "obras da carne", começa logo pelo vocábulo "prostituição", palavra hoje muito ouvida por todos. O apóstolo utiliza o vocábulo grego "porneia". Palavra bem geral para as relações e relacionamentos sexuais ilícitos e imorais. Porneia é a prostituição, e pornê, equivale a uma prostituta.

Há grande probabilidade de que estas palavras tenham ligação com o verbo pernumi, que significa “vender”. Portanto, essencialmente, Porneia é o sexo comprado e vendido – o que não pode ser chamado de amor, visto ser uma relação absolutamente monetária. Não pode ser amor porque a pessoa que se submete a esse tipo de relação não é realmente considerada pessoa, mas objeto. A palavra descreve o relacionamento em que uma das partes pode ser comprada e descartada como um verdadeiro objeto, e onde não há união de personalidade e afeto, muito menos respeito. É uma palavra extremamente furiosa com sentimentos e emoções.

É interessante o fato de que Paulo comece a lista das obras da carne com esse tipo de conduta pecaminosa. A vida sexual do mundo greco-romano nos tempos do Novo Testamento era absurdamente libertina. J. J. Chapman, descrevendo os tempos em que vivia Luciano, na primeira metade do século II, escreve: “Luciano vivia numa época em que a vergonha parecia ter sumido da terra”. Esse mundo greco-romano era regido por uma atmosfera de sexualidade deturpada.

Nos escritos de Demóstenes, por exemplo, há uma passagem que trata a conduta sexual leviana de forma assustadoramente normal: “Mantemos amantes para nosso prazer, concubinas para as necessidades diárias do corpo, mas temos esposas a fim de produzir filhos de modo legítimo e de ter uma guardiã fidedigna dos nossos lares”. Nesse contexto de libertinagem, essa palavra ganha imensa proporção.

Sólon foi o primeiro a legalizar a prostituição e a abrir prostíbulos do Estado, e os lucros destes eram usados para erigir templos aos deuses da Grécia libertina. Roma, que foi contaminada pelos pecados sexuais dos gregos, também não ficava atrás. Sêneca chegou a escrever: “A inocência não é rara; simplesmente não existe”. A classe alta da sociedade romana se tornou grandemente promíscua, Messalina, a imperatriz esposa de Cláudio, saía às escondidas do palácio real à noite a fim de servir num prostíbulo público. Juvenal conta que ela era a última a sair e, “voltava ao travesseiro imperial com todos os odores dos seus próprios pecados”. Uma sociedade contaminada por uma sexualidade desvairada em todos os seus níveis.

Talvez ninguém seja mais conhecido em questões de sexualidade deturpada do que Calígula, que vivia em incesto com sua irmã Drúsila, isso sem mencionar as diversas formas de perversão que ele praticava. Nero, outro imperador renomado e devasso, não poupou nem mesmo sua própria mãe, Agripina. Ele também era “casado” com um jovem castrado, com o nome de Esporo, e ainda passeou com ele por todas as ruas de Roma, em cortejo nupcial.

Paulo coloca-se absolutamente contra toda essa imoralidade sexual que apodrecia seu tempo. Para o apóstolo, o cristão autêntico não pode aceitar passivamente uma conduta sexual distorcida. Ele se espanta com a atitude dos Coríntios de não se sentirem horrorizados diante do caso do homem que estava coabitando com a esposa do próprio pai (I Co. 5. 1,2). Paulo expressa não somente uma teologia, mas um sentimento que ele mesmo estava vivenciando.

Paulo, mostra em suas cartas uma série de ordenanças aos cristãos autênticos sobre a maneira ideal de se comportar diante desse tipo de pecado. O cristão deve se arrepender (II Co. 12. 21); deve abster-se totalmente de tal coisa (I Ts. 4. 3); deve fugir dela (I Co. 6. 18), inclusive, esse foi o meio mais decisivo e determinante na vitória de José sobre sua tentação sexual pela esposa de Potifar (Gn. 39. 11,12); deve mortificar estas atividades (Cl. 3. 5). Esse pecado é onde o homem profana claramente seu próprio corpo, e isso fere o propósito de Deus para o corpo do homem (I Co. 6. 13).

Muitos estudiosos chegam a afirmar que a castidade foi a única virtude completamente nova que o cristianismo introduziu no mundo pagão. Isso não foi tarefa fácil, pois para a mentalidade pagã, a imoralidade era normal e o gnosticismo também influenciava, uma vez que, se o corpo é mau como pregava essa doutrina, não importa o que se faz com ele. Somente os gnósticos que seguiam um ascetismo rígido acreditavam que precisavam negar os desejos do corpo. Mas o que não compreendiam é que, quando se trata de uma obra da carne, somente pelo poder do Espírito é que estaremos aptos a batalhar e vencê-la.

Outro grave problema enfrentado pelo cristianismo foi o de que em muitos casos a prostituição era largamente associada à religião. Havia a chamada “prostituição sagrada” (hierodulismo, termo derivado de hiero, templo). Em Corinto, por exemplo, havia o Templo de Afrodite, onde havia milhares de prostitutas. Muitas delas, desciam para as ruas da cidade ao cair da tarde para exercerem sua “profissão”. Por incrível que pareça, religião e imoralidade andavam juntas. Sempre que a religião for somente um emaranhado de tradições e formulações humanas, estará sujeita a esses constantes pecados.

Por isso Paulo começa a lista com essa palavra, pois o que mais acontecia em seu mundo, em seu tempo histórico, era exatamente esse tipo de conduta. Assim, ser cristão era experimentar o milagre da pureza numa sociedade da podridão moral. A prostituição é a deturpação máxima do respeito, é a violência onde a honra e os sentimentos mais puros são corrompidos. Assim como Paulo somos chamados a bradar contra toda essa corrupção sexual que impera em nossos dias. Não podemos - e não devemos - ser cristãos anacrônicos, distantes de nosso tempo histórico, carecemos urgentemente de um retorno ao ministério profético da igreja, denunciando esses males, provendo um lugar de pureza moral e defendendo a genuína fé e vida cristã.

Até mais...


Alan Brizotti


Esse é o primeiro post de uma série que estou escrevendo sobre "as obras da carne e o Fruto do Espírito". Aguardem!

sábado, 15 de janeiro de 2011

Uma lição na igreja de Éfeso (Ap. 2. 2-4)


Sempre que lemos sobre a Igreja de Éfeso, estamos em contato com a atmosfera abençoada do Primeiro Amor. Aqui há uma forte lição: a Igreja não é lugar para os “profissionais da fé”, é lugar para quem quer desenvolver o Primeiro Amor.

A Igreja de Éfeso era uma Igreja que trabalhava. Uma Igreja que vivia a ética, sabia distinguir entre o certo e o errado. Com habilidade teológica e doutrinária para reconhecer os falsos apóstolos. Era uma Igreja perseverante, fiel, constante, uma boa Igreja... Entretanto, esqueceu o Primeiro Amor. Ela não tinha abandonado o amor a Cristo, mas tinha abandonado o Primeiro Amor.

Era uma comunidade cristã vivendo como alguns casamentos que já duram vinte, trinta anos. O casal ainda se ama, mas não mais com a mesma intensidade. A Igreja de Éfeso amava a Deus, mas não mais como o amou um dia. O Primeiro Amor é sensível, espontâneo, apaixonado e apaixonante. Corre mais riscos. Preocupa-se mais com o outro. Lança-se completamente ao outro. É menos cínico mais companheiro. Está sempre dando sem pedir nada em troca. É belo, encanta-se com o que é simples. Guarda num corpo pequeno um coração gigante, capaz de abraçar o universo. É generoso e leal. É uma chamada à vida plena. Tudo que esse amor faz é em nome do bem-estar do ser amado.

A Igreja de Éfeso tinha se tornado mais vigorosa; menos espontânea; mais eficiente; menos natural; mais crítica menos generosa, fazia tudo direito, mas não mais movida pelo amor. Precisamos compreender que o ativismo não substitui o amor. Martin Lloyd-Jones disse que “o ativismo é um homem girando em torno de si próprio”.

A grande lição da Igreja de Éfeso é de que precisamos resgatar o Primeiro Amor. Sem ele, nos tornamos frios, idealistas rígidos, matemáticos calculistas, perfeccionistas rasos. Permanecemos cristãos, mas o que nos motiva não é mais o amor, mas os deveres. É preciso resgatar o amor a Deus, ao próximo e a si mesmo. Sem amor não há espiritualidade.

“Enquanto a obediência é a justiça em relação a Deus, o amor é a justiça em relação aos outros”. A. Plummer


Até mais...


Alan Brizotti

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O Fruto do Espírito: o perfeito retrato de Cristo


Jesus conseguiu possuir a terra e a história sem ter onde reclinar a cabeça. O que ele realizou foi de imensa ressonância em nossa moral e ética, direcionando sua vida sob a conduta das virtudes listadas em Gálatas 5. 22, 23 de tal modo, que se entronizou nos corações aflitos, fez do amor sua lei e da graça sua teologia.

Jesus chegou ao ápice de cada virtude da lista de Paulo. Ele viveu o amor a tal ponto que abriu mão de sua própria vida para que outros pudessem viver. Seu amor rompeu limites e faces rancorosas. Um teólogo antigo escreveu que “só não conseguimos amar como Jesus amou porque não temos coragem de estabelecer para o nosso amor as mesmas barreiras que ele estabeleceu para o dele”.

Jesus viveu a alegria de forma tão intensa e deliciosa que conseguiu a façanha de libertar-se de geografias da opressão. Mesmo vivendo na Palestina da miséria e da opressão, sob o regime de um império pagão, existindo numa época de turbulências absurdas, conseguiu ser alegre. Após sua ressurreição, mesmo glorioso, vencedor da morte, ele suporta o caos que é para um ser santo viver entre pecadores só para propiciar a seus amados a glória de sua presença.

Ninguém na história da humanidade viveu de forma tão magnífica e desafiadora a realidade da paz. Cerca de setecentos anos antes de Jesus, o profeta Isaías já tinha avisado que ele seria “Príncipe da paz”. Sua capacidade de encarnar a paz era tão excelente que até a natureza, as coisas criadas absorviam essa paz. Ele acalmou vento e mar, a palavra acalmar é a melhor palavra. A calma é produto da paz, em Jesus essa paz era tão intensa que nem a forte tempestade nem o bravo mar ousaram quebrar essa harmonia sagrada.

Numa época de constantes guerras, tensões, efervescência política, tumultos sociais, nervosas disputas teológicas e todas as formas de opressão e violência, Jesus deu um espetáculo de paciência. Ele conseguia desarmar os mais furiosos argumentos com uma simples moeda! No auge da dor, na cruz, abriu as portas da intimidade e da graça e irradiou a história com a frase: “Perdoa-lhes!” Sua paciência não era passividade preguiçosa. Ele baniu os vendedores do templo e, mesmo assim, as crianças cantaram: “Bendito, filho de Davi!” Sua vida destilava essa paciência divina.

Jesus levou a ternura ao máximo que essa virtude é capaz de dar. Ele não era apenas um jovem que não desejava o mal a ninguém, ele se fez bem a todos. Toda sua trajetória histórica foi marcada por uma doçura invencível, uma incrível gentileza e delicadeza capaz de transformar publicanos, prostitutas, leprosos, líderes religiosos – qualquer pessoa – em alvo da graça. Em Jesus, cada gesto é coberto de ternura, cada palavra é cheia de vida, cada dia é marcado por uma incansável capacidade de abraçar.

Outra virtude levada ao extremo por Jesus foi a bondade. Ninguém viveu essa qualidade com tal desenvoltura e humildade. Ele era bom com seus discípulos, mas também com um gadareno marcado pela rejeição e pelo medo. Ele sabia demonstrar sua bondade não somente pelo que dava, mas principalmente pelo que era. O profeta Isaías, também afirmou que seu nome seria “maravilhoso”. Não foi por acaso que ele mesmo afirmou ser “O Bom Pastor”.

Jesus viveu sua fidelidade de forma tão singular que, a fé em seu sacrifício é hoje nossa salvação. Ele foi o homem mais digno de confiança que a história humana já conheceu. Ninguém teve um nível de fidelidade e dignidade tão excelente como ele. Sua base de fé estava em seu conhecimento do Pai. Quando ele disse ser “o caminho, a verdade e a vida”, estava afirmando com todas as letras que só ele era a construção mais perfeita da espiritualidade (caminho), a base da fidelidade (verdade), e a melhor proposta de existência (vida). Jesus marcou a história da suspeita com a abertura da fidelidade.

Ninguém era tão forte quanto Jesus. Mesmo em sua imensa força, jamais se impôs sobre alguém, assim, ele apresentou ao mundo e à humanidade a perfeita mansidão. Tinha a perfeita mistura entre a força e a suavidade. Ele temperou perfeitamente carisma com caráter, energia com graça, cruz com coroa. A mansidão em Jesus se transformou na qualidade essencial dos grandes, na esperança inigualável dos pequenos e na vitória magnífica dos que o compreendem como “Deus forte”.

Enfim, Jesus tinha um perfeito equilíbrio, fruto de seu domínio próprio, sua tremenda capacidade de subjugar apetites e paixões. Como humano, o escritor aos Hebreus nos mostra que ele em tudo foi tentado, mas sem pecado (Hb. 4. 15). Ele trilhou as estradas da tentação, enfrentou os altos e baixos da condição humana, foi humilhado, desprezado, ferido, mas em tudo isso foi perfeitamente equilibrado. Nunca se entregou aos caprichos da mentalidade beligerante de seu tempo, não se aprisionou às neuroses, não perdeu seu domínio. Ele aprendeu o que é a vida humana do ponto de vista de um humano.

Baseados em Jesus podemos afirmar como Paulo: “Contra estas coisas não há lei”. Jesus viveu sua vida baseado nessas virtudes, provando que elas são as mais excelentes “leis” que um ser humano pode seguir. São Leis de Deus, leis que geram vida, que não aprisionam, mas libertam. São leis que não ferem, mas curam. Há um ditado latino que diz: “A lei sempre acusa!” Mas no espírito dessas virtudes, nenhuma lei acusa, pois o princípio fundamental de cada uma delas é viver uma excelência de vida e espiritualidade.


O Fruto do Espírito é o perfeito retrato de Cristo!


Até mais...


Alan Brizotti

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O outro nome do amor


Gosto de enxergar Deus através da fragilidade humana de Jesus. Imaginá-lo humano e menino, bailando ao som da inocência. Sabendo que os pés vão se sujar na poeira palestina. Que não fará milagre maior do que amar...

Ele não cedeu à tentação do poder que esmaga. Não viveu para os aplausos dos poderosos. Poder e Jesus são palavras contraditórias. Ele não vestiu a máscara do herói, não tripudiou sobre os que não sabem. Não beijou as mãos das elites e suas manias. Era tesouro guardado na clandestinidade divina...

Nunca impôs. Sempre propôs. Não invadia sentimentos. Não brincava de Deus...

Jesus é um amor que dói. Não um amor de conveniências, como troco de supermercado. Não o amor malandro da verbalização ortodoxa. Não um amor de instituição. Jesus é amor de vida. Mistura de carne e sangue no chão sujo da história. Silêncio que respeita quem não tem mais o que dizer...

Jesus me amou assim. Sem excluir minhas falhas, fúrias e crises.Sem desperdiçar meus "ais". Ele não me submeteu aos testes da religião, apenas amou. Apenas ama. Esse "apenas" de Jesus é mais pleno do que os "se's" da religião. Jesus redefiniu amor...

Não há nada mais belo do que o retorcido da cruz irradiando amor puro. Puro amor. Se eu pudesse dar outro nome ao amor, seria Jesus.


Até mais...


Alan Brizotti

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Para não voltarmos aos cárceres


Quando a alma é liberta, quando respira o ar abençoado que existe do lado de fora dos cárceres, enche-se de entusiasmo, de vida, alegria, de uma maravilhosa sensação de leveza. Porém, os cárceres não somem. Eles continuam sendo o que são: prisões à espera de prisioneiros. Por isso é tão necessária a vigilância, a constante autoanálise, para que essa alma livre não caia em novas/velhas servidões.

Diante disso, surge um questionamento: como manter a liberdade da alma?

Oração: mantendo a alma em diálogo com Deus (Mt. 6. 9-15)

Montgomery escreveu: “A oração é a linguagem mais simples que lábios infantis podem experimentar; a oração é o clamor mais sublime que atinge a Majestade nas alturas”.
A oração é a respiração da alma. É uma das mais intensas formas de diálogo com Deus. Diálogo, como dizia Carlos Drummond de Andrade, “é você falar e suportar o que o outro tem a dizer”. Isaque da Síria dizia: “Não reduzas as tuas orações a meras palavras, mas antes, faz da totalidade de tua vida, uma oração a Deus”.
A verdadeira oração é repleta de reverência a Deus, de um real senso de necessidade (e não de um consumismo religioso), da anulação do orgulho e da confiança de que somos ouvidos por Deus. James Houston escreveu: “Ser dedicado à oração é, essencialmente, viver aberto para Deus”. Nesse clima de abertura e confiança nasce a entrega, nasce a certeza de que, livres dos cárceres, mantemos um diálogo de amor, um relacionamento sem máscaras e uma dedicação à liberdade que agora desfrutamos.

Palavra: mantendo a alma em contato com o conhecimento de Deus (Sl. 119.11)

Leonard Ravenhill, no esplêndido “Por que tarda o pleno avivamento”, escreveu: “A Bíblia te fará deixar o pecado, ou o pecado te fará deixar a Bíblia”. Quando a alma mergulha nas profundas águas do conhecimento de Deus, experimenta as mais tremendas dimensões da intimidade de uma espiritualidade curada. Vivemos em estado de contradição: pela Palavra num mundo da imagem. Somos parte de uma sociedade educada pela televisão, onde imagens prontas abortam o exercício do pensar. Esse é um desafio gigantesco: pensar a Palavra numa geração viciada no imediatismo da vida de “faz-de-conta”.

Se a Palavra não estiver enraizada na alma, outras raízes nascerão. Raízes de amargura, de egoísmo, da destruição da interioridade. Mas quando a Palavra cria raízes em nós, os frutos da graça brotam e operam o milagre máximo da santidade num mundo apodrecido.
Como disse Donald Grey Barnhouse: “O caminho mais curto para entender a Bíblia é aceitar o fato de que Deus está falando em cada linha”.

Perdão: mantendo a alma mergulhada no amor de Deus (I Jo. 3. 18-22)

A interpretação rabínica leva o mandamento “Não Matarás” a uma dimensão extremamente profunda, que vai muito além do fato óbvio de não cometer algum assassinato. Os rabinos afirmam: “Não negarás ao outro o direito de existir em tua vida” – perdoe! É o mandamento do perdão.

O famoso filme “Love Story”, de Arthur Miller, popularizou uma frase infeliz: “Amar é não ter de pedir perdão”. Mas a celebração do evangelho nas almas livres dos cárceres da culpa e da vingança, curiosamente vai na direção oposta: quanto mais amamos, mais temos a sensibilidade de pedir e dar o perdão. Ele nos liberta das amarras do ressentimento que, literalmente, significa “sentir de novo”. O perdão nos liberta da compulsão da repetição. Alguém disse que “guardar ressentimentos equivale a ingerir veneno esperando que aquele que nos ofendeu morra”. Philip Yancey disse “que o próprio termo ‘perdoar’ já contém a palavra ‘doar’”.
O evangelho simples da graça é todo feito com perdão – do início ao fim. No original grego, a palavra mais usada para perdão significa, literalmente, “soltar, jogar para longe, libertar-se”. A alma livre, se mantém em liberdade aprendendo a jogar para fora futuras frustrações.
Um rabino que foi morar nos Estados Unidos saindo dos campos de concentração nazistas, disse: “Antes de vir para a América, precisei perdoar Adolf Hitler. Eu não queria trazer Hitler dentro de mim para meu novo país”. Como dizia o teólogo Paul Tillich: “O perdão é o ato de lembrar o passado para que ele possa ser esquecido”.

Santidade: mantendo a alma na segurança do caráter de Deus (Sl. 91.1)

A alma livre precisa cultivar a santidade. O santo não é aquele que se isola da vida, que tenta viver com a obsessão de uma perfeição ilusória e legalista. O santo é aquele que confia no caráter de Deus, que se esforça para viver digno da vocação a qual foi chamado. Jesus viveu a santidade num altíssimo grau. Ele não se isolava da vida, não se exilava nas sinagogas nem se exaltava nos legalismos dos fariseus. Sua vida era a mais singela santidade.

Em sua fantástica e reveladora oração (João 17), ele diz: “Não peço que os tire do mundo”. Ele ora para que seus discípulos compreendam que a vida santa não é uma vida sem humanidade, sem a fúria normal do cotidiano, mas uma vida que, apesar das crises do dia-a-dia, se mantém plena de Deus. Tryon Edwards escreveu: “Uma vida santa não é uma vida ascética, melancólica ou solitária, mas uma vida regida pela verdade divina e fiel ao dever cristão. É viver acima do mundo, embora ainda estejamos nele”. Thomas Watson disse: “A santificação é gradual; se ela não aumenta, é porque não está viva”.

Manter a alma em liberdade não é fugir da vida. É ter a coragem de enfrentar-se, de olhar no espelho da intimidade e crer que há possibilidade de renovo. É enfrentar a realidade de que somos pecadores carentes da graça. Agostinho dizia: “O homem é mais livre quando controlado apenas por Deus”. A lei de Deus é o amor e, quando conhecemos, vivemos e demonstramos esse amor, aí sim, estamos absolutamente livres. “Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8. 36)


Até mais...


Alan Brizotti

sábado, 1 de janeiro de 2011

João 15 e a arte dolorosa de podar


A linguagem de Jesus nos evangelhos é repleta de metáforas, construídas sob uma riqueza de imagens. Suas parábolas são verdadeiros convites à imaginação. Banquetes verbais que alimentam espiritualidades famintas. São mais do que simples histórias com fundo moral ou doutrinário: convidam-nos a adentrar um mundo cheio de símbolos, imagens, possibilidades, verdades, ideias e certezas do reino.

Uma particularidade bela é que Jesus nem sempre conclui suas histórias. Com isso, ele nos convida a sermos co-autores dessas histórias. Somos convidados a encontrar ressonâncias delas em nossa cotidianidade. Somos convidados a encontrar final diferente. Histórias não são como exercícios de matemática: não são exatas! Não são imutáveis, encarceradas à tirania de uma lógica (desde que aprendemos que um mais um soma dois, isso jamais mudou). As histórias são libertas dessas algemas: elas crescem conosco, amadurecem quase no mesmo ritmo que nós.

A imagem da videira constitui uma das mais profundas e inspiradoras metáforas utilizadas por Jesus no trato com seus discípulos. Nessa construção espiritual, nossa vida é apresentada como sendo os galhos ligados à videira. Ele é a videira, nós, os galhos. Uma metáfora de implicações profundas. Um convite à intimidade que produz frutos. Muita gente, na atualidade, gosta do título de “íntimo”, porém, sem produzir nenhum fruto.

Um processo longo e doloroso

Poucos conseguem compreender a grande e desafiadora verdade de que para crescer e produzir frutos o galho carece do trabalho de um agricultor experiente que, com muita precisão, amor e ternura, trabalha na realização da poda. Talvez, uma das mais belas lições desse texto seja: Deus enxerga possibilidades no galho! Jesus afirma que Deus, o Pai (questão central da espiritualidade, Deus como Pai), no início das primaveras, toma os ramos em suas mãos e começa a realizar essa delicada e incrível tarefa. O jardineiro celeste abençoa cada galho com suas mãos bondosas. Lutero dizia: “Nosso Senhor escreveu a promessa da ressurreição não somente nos livros, mas em cada folha da primavera”.

Seu trabalho é meticuloso: limpa, corta, tira o excesso propiciando às folhas e frutos a bênção de nascer saudáveis. Essa metáfora nos leva às mais profundas dimensões da espiritualidade, no lugar secreto onde habita a necessidade de manutenção da vida espiritual. Esse lugar íntimo é perigoso, é o lugar onde ilusões podem matar, onde parasitas da espiritualidade habitam, daí a necessidade de uma poda.

Crescimento espiritual não é fruto de uma somatória de eventos, experiências, informações e realizações que vamos acumulando ao longo da vida. É o resultado de um longo processo de jardinagem, onde o jardineiro experiente trabalha com o único anseio de ver o fruto brotar belo e saudável. Nosso grande problema é acreditar que a espiritualidade é determinada por aquilo que fazemos para Deus, contudo, essa metáfora deixa bem claro que, antes de fazermos alguma coisa, de darmos algum fruto, somos submetidos à poda de Deus. Portanto, o que Deus faz em nós precede o que fazemos por Ele.

Do ponto de vista de um leigo em jardinagem, a poda parece uma mutilação, uma violência, uma agressão. O processo é doloroso. A planta fica feia, sangra. Porém, esse é o caminho. Para que a planta possa produzir, eliminar os parasitas, ela precisa atravessar esse processo.

O que precisamos podar?

Muitas coisas precisam ser podadas em nós. Carecemos muito da intervenção do jardineiro celeste. Os parasitas da atualidade são muito mais letais, muito mais nocivos. Vivemos num século da desumanidade, da deterioração da beleza. Nossos galhos agonizam numa poeira pós-moderna asfixiante.

Uma das coisas que precisamos podar é a ambição desmedida. A busca alucinada por sucesso, fama, garantias profissionais e financeiras, segurança, estabilidade. Estamos como prisioneiros de um velho pecado que surge hoje com cara nova: a ambição. Antigamente era considerada um grande mal, hoje, é aclamada, valorizada, buscada e desejada. Foi “santificada”, transformou-se virtude. O grande problema desse parasita, é que ele, sutilmente, inverte os pólos, levando-nos a deixar de ser criaturas para ser criadores.

Para que possamos viver plenamente, precisamos estar inseridos nos termos da criação. Isso implica viver debaixo de uma ordem definida na criação, ou seja: Deus ama e nós somos amados; Deus cria e nós somos criados; Deus revela-se e nós recebemos a revelação; Deus ordena e nós obedecemos. Isso nos leva a crescer como criaturas, aceitando o Criador, entendendo que não somos nós que damos sentido ao mundo, é Deus. Ser cristão é aceitar os termos da criação. Isso nos livra da tentação de viver num mundo sem criador. Isso nos livra de carregar um peso que não é nosso. Se o jardineiro divino podar nossas ambições, seremos livres para amar, para ser conduzidos e para ser abençoados.

Outra coisa que necessitamos ser podados é a ingratidão. Elas nos torna pessoas insatisfeitas. Nunca temos o suficiente, sempre há alguma coisa em falta (ou alguém). Perdemos a capacidade de ver Deus agindo nas pequenas coisas, a alegria de perceber sua graça nos detalhes. Como efeito colateral disso, perdemos a capacidade de confiar. Somos aprisionados na dependência de nós mesmos, numa masmorra da autossuficiência.

Nessa busca por autoconfiança, encontramos apenas ansiedade e desespero. Fechamos as portas da alma para a presença alegre e libertadora do Espírito Santo. Somos engendrados numa teia agonizante de reclamações, onde perdemos a capacidade de perceber o cheiro das flores e o sabor dos frutos. Galhos marcados pela esterilidade.

Quando Deus poda a ingratidão, abrimos a alma para a generosidade. Valorizamos o dar ao invés do receber. Aprendemos a ir ao encontro do outro, redescobrir o bendito movimento para-o-outro, ao invés de esperarmos que o outro nos encontre. Aprendemos a oferecer a mão, o ombro, o carinho, a compaixão, ao invés de lamentar o abandono e a solidão. Ao invés de buscar bênçãos, tornamo-nos bênção para os outros. Exalamos o perfume das flores que a poda divina fez nascer em nós novamente.

Também precisamos podar a apatia ou acomodação. A apatia (do grego: a + patós: sem sentimento) é a fonte da anemia espiritual. Ela nos torna descuidados, displicentes, acomodados. Aliás, não há nada mais feio do que um jardim abandonado. As roseiras que não foram podadas no tempo certo, que cresceram desordenadas, não têm mais forças para fazer as rosas brotarem, misturam-se com o mato, tornam-se semelhantes a ele. O que o jardineiro celeste faz é limpar o mato, tirar o excesso, abrir os caminhos para a circulação da vida. Podar é possibilitar novamente o fluxo da vida, o viço da beleza, o crescimento saudável.

Quando descuidamos da vida devocional, da oração, quando o descaso para com a igreja cresce, o abandono da comunhão acontece, o mato vai crescendo e sufocando a vida. Outros hábitos vão sendo formados, passamos a gostar de outros lugares, a ter prazer noutras coisas. O mato começa a fazer parte da paisagem, toma conta do jardim. O que é mais triste é que só daremos conta do mal quando o fruto vier apodrecido, isto se vier algum fruto.

Podar a apatia ou acomodação é renovar alianças e votos. É permitir que a seiva da graça de Deus volte a correr por todos os canais, trazendo de volta a vida e a paixão por Deus, pela família, pela igreja. É voltar os olhos para o futuro e, como o jardineiro – que logo após a poda, deixa a videira mutilada e feia – saber que, após alguns dias de chuva e sol, ela renascerá cheia de vida, bela, radiante e admirada pelas cores e pelo perfume.

Uma certeza temos: precisamos da poda! É doloroso, mas necessário. Existem muitos ramos que já não frutificam. O mato tem sufocado a espiritualidade, eliminado o perfume, apagado as cores. Jesus deixou claro que o destino de tais galhos é o fogo da destruição, uma vez que já não servem. A lição que fica aqui é muito importante: Deus anseia por nos libertar de nossa própria debilidade, ele anseia mostrar ao mundo sua beleza em nós, seu perfume em nós, sua glória. É a arte do jardineiro na pobreza do galho.

Temos uma verdadeira alegria, pois ainda que as crises façam o mato crescer, temos um jardineiro atento e pronto a nos podar para que nossos frutos sejam dignos e belos.

“Você já notou a diferença existente na vida cristã entre obra e fruto? Uma máquina pode realizar sua obra; só a vida produz fruto”. Andrew Murray


Até mais...


Alan Brizotti


Feliz 2011

LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin