terça-feira, 5 de julho de 2011

Livros poéticos: beleza, espiritualidade e cultura


Quando entramos em contato com a poesia bíblica, adentramos em uma dimensão espiritual absolutamente fascinante. De Jó a Cantares, a espiritualidade e o cotidiano se mesclam numa dança abençoada. Estudar os livros poéticos é mergulhar nas dimensões encantadoras do Deus que é o Pai da beleza.

A) A expressão do cotidiano

Os livros poéticos não propõem uma fuga da normalidade. Não são devaneios literários. São livros nascidos do cotidiano. São misturas perfeitas de teologia, filosofia, história e geografia. Acontecem e pertencem a um tempo histórico definido. Não são mitologias, relatos fantasiosos, metafóricos. São circunstâncias normais vistas com o que Irineu chamava de “olhos curados pela graça”. Jó relata o enfrentamento da dor que todo homem conhece. Os Salmos são leituras da vida, falas da alma em cada momento enfrentado, seja de alegria ou de crise. Provérbios são esclarecimentos, direcionamentos de um “professor” da existência. Eclesiastes, como disse um antigo pensador, “é o livro máximo do tédio absoluto”. Cantares é amor, sexo, instinto, espiritualidade e cultura. Livros que expressam Deus na fúria da vida. Uma grande lição que devemos aprender aqui é: não há espiritualidade no isolamento da vida.

B) A expressão profética

Poesias proféticas. Desde as imagens do justo sofredor em Jó até à relação de amor entre Cristo e sua noiva (igreja) em Cantares (a visão alegórica do texto), a expectativa messiânica inunda a poesia de profecia, o amanhã de sentido. Tendo em vista o conceito judaico de que a profecia é a experiência de comungar o pathos, “sentimento” divino, cada expressão poética ganha forma. A ideia essencial é descrever poeticamente e profeticamente a pessoa do Messias, que, no livro de João, é o “verbo que se fez carne”. A poesia agora é carne e vida no chão da história. De forma suave, bela, a esperança poética é fortalecida. Uma grande verdade que flui dessa dimensão profética é a atuação do consolador. Através da verdade profética pela via da poesia, a atuação do consolador é antecipada. Os judeus têm grande apreciação pelos livros poéticos, principalmente, por seu caráter de manifestação messiânica.

C) A expressão espiritual

A espiritualidade dos livros poéticos é perceptível em cada frase. A atmosfera desses livros é em si mesma, um convite à devoção. É uma espiritualidade do afeto, da quietude, do consolo. Contudo, há também o registro de uma espiritualidade que enfrenta as crises, os confrontos, os conflitos, a patologia normal da identidade humana. São livros que servem como auxílio aos que enfrentam as adversidades da vida. Essa característica espiritual é responsável pelo reconhecimento desses livros no âmbito secular. Em qualquer lugar, fora do contexto da igreja, é possível encontrarmos uma Bíblia aberta num Salmo, ou alguém fazendo uma citação direta do livro de Provérbios ou de Eclesiastes. Vários convites de casamento trazem algum verso de Cantares. A sociedade pós-moderna, ávida por movimentos místicos de uma “espiritualização interior”, busca nesses livros os subsídios para suas crenças.

D) A expressão teológica

Os livros poéticos são riquíssimos em teologia. Seu chamado à profundidade, sua crítica à superficialidade, seu apelo à sensibilidade e suas várias formas de demonstrar Deus, são verdadeiras aulas teológicas. Desde os personagens centrais (Jó, Davi e Salomão) até os lugares (Templo, jardim, montanhas e deserto), cada texto tem uma conotação teológica profundamente pertinente. Até hoje, nos círculos acadêmicos, livros como Jó, Cantares e Eclesiastes, são responsáveis pelos duelos teológicos mais cáusticos. Contudo, do ponto de vista da poesia, a teologia contida nesses livros não faz um convite ao apertar de pescoços, mas ao encantamento. Não há uma teologia do terrorismo ideológico, mas uma teologia do fascínio, da redescoberta do belo, da apreciação das profundezas do ser. Teologia e poesia não são bombas para o extermínio da alegria, mas convites ao prazer de pensar.
Faça um favor a si mesmo: leia os livros poéticos da Bíblia.
Até mais...
Alan Brizotti

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