quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Não confie na mídia


José Arbex Jr., lançou um livro espetacular: "Showrnalismo - a notícia como espetáculo" (Casa Amarela, editora). A ideia central desse ótimo livro é de que, na sociedade da informação, o telespectador/leitor é induzido a abandonar qualquer tipo de reflexão. Acredito piamente nessa verdade!

Dias atrás, folheando uma revista semanal de grande circulação no país, notei algo intrigante: a revista vangloriava-se de ter entrevistado os candidatos à presidência: Dilma, Serra e Marina. Perguntei a mim mesmo: e os outros candidatos? Aliás, você consegue, ao menos, lembrar seus nomes? Provavelmente não. A mídia simplesmente escolhe seus queridinhos e elimina, oculta, inviabiliza, massacra ou ignora os outros. Simples assim.

Não é de hoje que nem tudo que se vê, lê ou ouve na mídia é verdade, pois sabemos que nem toda verdade pode ser vista, lida ou ouvida. Estamos na Idade Mídia, a época da banalização dos conteúdos em detrimento dos lucros de alguns. Todo mundo sabe que a Globo manda no Brasil. A mídia, sabendo do poder que tem, assume seu complexo de Criador: "A sociedade será à minha imagem e semelhança".

Quando a mídia quer "fazer" alguém (o termo soa incrivelmente estranho/apropriado), em pouco tempo o país, e talvez o mundo, passa a conhecer seu novo ídolo de mercado. Com o respaldo da mídia, qualquer pessoa - independentemente do talento - torna-se ícone, ídolo, modelo, exemplo. Não é por acaso que um dos "talentos" mais celebrados da atualidade seja o de "marketing pessoal", eufemismo para criadores de confusão com o único fim de promover sua imagem, uma Lady Gaga da vida.

Por isso que, ao longo da história, a mídia sempre brigou contra poetas e profetas, pois ambos jamais beberam nos cálices da mesma, jamais prostituíram suas vocações no bordel do mercado, jamais trocaram suas almas pelos famigerados "quinze minutos de fama". Que Deus continue levantando poetas e profetas!

Não confie totalmente na mídia. Questione. Avalie criticamente. Pense, pense, pense. Não seja marionete nas mãos sujas dos manipuladores da informação. Não venda seu cérebro. Não seja infectado pelo vírus da infoxicação, a intoxicação que vem pelo excesso de informação.

Como diz um provérbio antigo: "Enquanto a verdade calça as botas, a mentira já deu duas voltas ao redor da terra".


Até mais...


Alan Brizotti

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Casamentos sólidos, sociedade curada




“Assim como pela criação Deus de um fez dois, pelo casamento, ele de dois fez um”. (Thomas Adams)

Deus é o criador do casamento. Ninguém consegue se casar longe do olhar supremo de Deus. Não há nada tão belo quanto o esplendor de duas almas unidas pelo vínculo do amor. Em pleno século XXI, as pessoas ainda buscam aquele olhar que desafia e encanta, aquela pessoa que faz perder o fôlego, aquela música que estimula os sonhos, aquele amor que faz a vida acontecer.
Pobre é o ser que não se encanta, que não sabe o que é o amor.

Vivemos dias onde a fantástica celebração do amor está sendo ameaçada pela mediocridade de uma geração viciada em consumismo, sensualidade abusiva e taras desprovidas de respeito e afeto. Quanto mais perto da violência sexual (falar de amor sem amor, usar o outro como objeto, casar por aventura, etc.), mais longe do ideal de Deus para o casamento.

A intimidade despedaçada

Numa época onde os valores são deturpados a todo instante, viver o amor que Deus sonha para nós é revolucionário. Estamos num tempo onde impera a lógica do absurdo: é preciso tirar proveito de tudo! Essa lógica/doença despedaça a intimidade, estilhaça a alma, quebra os vínculos que constroem os sentimentos.


Os sintomas dessa desconstrução da vida estão por toda parte: casamentos descartáveis, que duram somente na estação do êxtase. Famílias destruídas no cerne do afeto, onde as relações (quando existem) são apenas monetárias, o bolso é o centro, não o coração. Sexualidade sem vida, onde o que se tem é uma tragédia de lençóis e não a celebração do encontro humano mais profundo.


Essas anomalias são frutos de uma rebelião contra a moralidade e a verdadeira identidade humana. Não somos animais que, em nome do instinto de sobrevivência, fazem da vida uma barbárie sem amor. Somos seres nos quais Deus escolheu habitar, seres que podem ser cheios de Sua glória. Seres que amam.

Ainda há esperança

Como cristãos, apesar de toda a feiura do momento atual, podemos ter/ser a esperança. Temos/somos faróis de Deus no oceano dos frustrados. Nossos casamentos sólidos são rastros de Deus numa sociedade adoecida, numa sociedade em busca de cura. Nosso chamado é restaurar as certezas, apontar na vida e na voz a esperança que nunca se vai.

Pela imensa graça de Deus podemos ser dignos de confiança, ter uma família que se respeite, que se ame, que se dedique à vocação de Deus para a vida: ser sal e luz num tempo histórico apodrecido. Deus conta conosco, acredita em nós, ama nossos casamentos, compreende nossas fraquezas e aposta em nós como construtores de uma nova história.


Como disse Thomas Brooks: “A esperança consegue ver o céu através das mais densas nuvens”. Nossos olhos podem focalizar o melhor de Deus para o nosso casamento, basta que eles sejam lubrificados pelo colírio da Palavra e fixados um no outro como no dia do casamento.


Até mais...




Alan Brizotti

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Qualquer pessoa pode se tornar um fariseu


O germe do farisaísmo está dentro de nós. O dualismo carne x espírito. Para o apóstolo Paulo era uma guerra entre duas forças opostas (Gl. 5. 17), era o terrível dilema da condição humana. Os judeus tinham uma doutrina de “yetser hatobh e yetser hara”, a natureza boa e a má. Essa ideia era de que havia no homem duas naturezas, o que deixava esse homem na condição de um ser sempre atraído para duas direções ao mesmo tempo.

Esse conflito é, na verdade, o nosso “inimigo implacável”, inclusive por seu caráter de intimidade, secreto. No mito do Fedro, Platão descreve a alma como o carroceiro cuja tarefa é dirigir em arreios duplos, dois cavalos, um dos quais é “nobre e de raça nobre”, e o outro é “o oposto na raça e no caráter”. O cavalo nobre é a razão e o cavalo indócil é a paixão; o cavalo de natureza má “sobrecarrega o carro”, e o arrasta para a terra.

Os romanos também expressaram esse conflito em sua literatura, Ovídio, deu seu famoso suspiro de frustração: “Vídeo meliora, proboque; deteriora sequor” (“Vejo as coisas melhores, e concordo com elas, mas sigo as piores”). Sêneca escreveu: “Os homens amam e odeiam seus vícios ao mesmo tempo”. Por essas e outras ideias, a tendência maior foi colocar o corpo como o mal, Filolao, escreveu que “o corpo é uma casa de detenção onde a alma é aprisionada para expiar seu pecado”.

O mundo antigo era repleto de uma atitude de horror ao corpo, uma guerra que o declarava como prisão da alma. O pensamento platônico era de que o convívio com o corpo perturba a alma e a impede de atingir a verdade e a sabedoria. Esse conflito chega ao Novo Testamento com toda a sua acidez, tanto que Jesus trabalha todo o Sermão da Montanha (Mt. 5-7) no âmbito da interioridade, uma vez que os fariseus trabalhavam a exterioridade.

Essa tensão da existência acaba contribuindo para uma busca da autocompreensão, uma peregrinação à intimidade, onde nos achamos e nos perdemos nos realizamos e nos anulamos quase que na mesma proporção e violência.

O homem e seus conflitos interiores

Somente uma vida santificada, orientada pelo Espírito é capaz de olhar esse conflito de frente. Essa vida no Espírito é tão significativa, determinante e essencial ao cristão que o próprio Cristo foi e é nosso maior exemplo.

A síntese perfeita desse conflito está na cruz. Tanto as miserabilidades humanas quanto a graça de Deus se encontram e se concretizam. A cruz é o encontro que resolve o conflito. Ela propaga a espiritualidade do encontro. No Cristo crucificado morre também a hegemonia monstruosa do pecado, e no Cristo ressuscitado nasce toda a plenitude de uma vida no Espírito, pelo Espírito, para o Espírito, com o Espírito e em Espírito.

A partir das inquietações humanas, o homem, principalmente o homem pós-moderno, é levado a constantes encontros/desencontros provocadores de toda a desconstrução do projeto humano e suas ânsias. Por isso é que afirmo: qualquer um de nós pode se tornar um fariseu!

Para que possamos compreender o alcance do pensamento paulino na problemática da carne e na teologia do Espírito, é necessário o mergulho nas inquietações humanas e em toda a gênese do conflito do ser.

Paulo: um ex-fariseu fazendo a radiografia do farisaísmo

Uma das palavras que Paulo utiliza para “carne” é a palavra grega sarx. Esta é uma das palavras características do apóstolo, uma das que mais percorrem suas cartas, especialmente a carta aos Romanos, aos Gálatas e aos Coríntios.

A sarx (carne) é a inimiga mortal do pneuma (espírito). São duas forças opostas dentro da experiência humana. Paulo usa a palavra com o sentido de que viver na carne é exatamente o inverso de ser um cristão (Rm. 8. 9, 12). Estar na carne é estar sujeito ao pecado (Rm. 7. 14). Nesse ponto, ser dominado pela carne e ser escravo do pecado são a mesma coisa. O farisaísmo nasce dentro de seres carnais, seres que, apesar de “confessarem” a Cristo, vivem sob o legalismo asfixiante, que anula a obra da cruz.
Na carne não habita nada de bom (Rm. 7. 18), aqui reside a diferença entre corpo e carne (soma e sarx), o corpo pode tornar-se instrumento do serviço e da glória de Deus, porém a carne não pode; o corpo pode ser purificado e até mesmo glorificado, contudo a carne deve ser eliminada e erradicada. Essa batalha é a mais impressionante de todas, pois ocorre nos domínios da intimidade, nas dependências mais secretas do homem. O fariseu vive acorrentado à prisão da sarx, por isso rejeita qualquer aproximação ou exortação que ele não julgue ideal.

A carne é o inimigo íntimo, aquele que fica do lado de dentro abrindo o caminho para o inimigo que quer convite para também arrasar nossa interioridade, o inimigo que está forçando a porta. Ela é aquilo que o homem fez de si mesmo, seu próprio desastre, sua própria tragédia, em contraste com o homem conforme Deus o fez. É o homem em conformidade com aquilo que permitiu que viesse a ser, em contraste com o homem conforme Deus pretendeu que ele fosse.

A carne é a natureza humana conforme se tornou através do pecado. Ela é o homem em desesperado estado de contradição. Qualquer pessoa pode se tornar um fariseu. Portanto, cuidado!


Até mais...


Alan Brizotti

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Esposa de pastor: a crise de ser


Quem é essa mulher? Guerreira, anônima ou solitária? Ou seria um híbrido das três? Percebo uma mulher marcada, incompreendida, exageradamente cobrada. Tenho visitado muitos sites, blogs e redes sociais, lido muitos artigos sobre essa figura emblemática, contudo, em sua grande maioria paira a mesma tônica: uma mulher cujos olhos estão machucados pelas luzes que intensamente brilham sobre seus maridos, mas que não afastam a penumbra de sua crise. É a dor da invisibilidade no mundo dos holofotes.

A esposa do pastor ainda é uma mulher em contradição. Tem a missão de Eva num mundo de serpentes, as lágrimas de Ana em igrejas de Peninas e, como diz o título de um livro, tem “o coração de Maria num mundo de Marta”.

Vamos observar algumas das mais sérias crises que a esposa do pastor enfrenta na guerra da vida, na cotidianidade da fé:


A crise da perfeição
Em muitos lugares a esposa do pastor é escrava da perfeição. É condenada ao êxito sempre. Não pode falhar, errar, sofrer, sentir alguma dor. O pior é que nunca chega a essa perfeição dela cobrada. Se olha feio, é má; se sorri para todos, é falsa! Se tem amigos, faz acepção! Ela é proibida de sentir aquela tristeza sagrada de todo humano. A tentação da esposa perfeita ainda mata muitas mulheres que tinham tudo para marcar uma geração.

A crise do resultado: a obsessão de funcionar
Para o imaginário popular é inadmissível uma esposa de pastor que não tenha alguma ocupação. É a tentação do ativismo. É a desumanização, a mania do desempenho de máquinas. Ela fica como alvo principal da língua de todos: o sucesso do pastor é sua obrigação; o fracasso, é sua culpa! É a clonagem ministerial: uma esposa à imagem e semelhança do seu “dono”.

A crise do retorno: escrava da aprovação
Muitas são as esposas frustradas por não se sentirem aceitas. No afã da aprovação, sacrificam sua identidade e sufocam a alma. Vivem apenas pelo retorno. Sofrem demais quando percebem um certo desprezo à sua sofrida obra.

A crise da solidão: o medo da confiança
Ela vive no chão da suspeita. Não pode abrir a casa pra todo mundo, mas também não pode fechar! É a encruzilhada do medo. Como disse um escritor antigo: “O medo é um gigente que se nutre da carência”, e carência é o que a esposa do pastor mais possui. Ela é conhecida da multidão, mas não tem o afeto de indivíduos dissociados da massa. Sofre, pois não sabe quando a aproximação é feita por interesses.

O que Deus diz a essas mulheres?

Você é aceita pela graça assim como é!
A graça liberta da tirania da perfeição. É Maria, uma moça simples, grávida, fazendo história pra Deus!

Deus jamais te medirá pelos resultados
Tudo que fazemos só é possível porque Ele já trabalhou em nós! É Raquel, marcada pela tradição e esterilidade, mas amada – os filhos nascem por um poder que ela não possui!
Deus conhece o seu coração
Ele sabe do seu desejo sincero de servir. É isso o que Ele mais aprova. Thomas Merton dizia que “O desejo de Te agradar, já Te agrada”. É Tamar: no turbilhão das crises, entra na genealogia do Messias.

Nos braços do Pai, a solidão termina
O Pai que nos vê no secreto (Mt. 6. 6) é o que nos sustenta em amor. É Ana: chorando sozinha, mas para aquele que pode resolver!

Mesmo numa sociedade de crises, a esposa do pastor ainda faz grande diferença.


Até mais...

Alan Brizotti

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Quando o pensar ameaça


A igreja tem medo de pensar. A verdade assusta. Muitos são os que amam a ignorância porque não querem assumir as consequências do pensar. Muitos sofrem da síndrome do presídio: o medo da liberdade - por viver tantos anos preso o indivíduo, uma vez liberto, cometerá outro crime só para voltar ao único mundo que conhece - o mundo das regras e punições.

Esse tipo de fobia é o prato predileto dos políticos, dos coronéis sagrados, dos mini-Hitlers da fé, de todos que detém poder sobre a massa. É muito mais fácil governar uma massa burra, uma massa de manipulação garantida. Quando a massa pensa também ameaça.

O nível de leitura do evangélico brasileiro é horroroso. Sua teologia é tão vulnerável quanto seu compromisso. O nome da hora é confusão: o que somos? Protestantes, evangélicos, cristãos, crentes, gospel? Nossa (in)definição é tão turva quanto nossas (in)certezas. A coqueluche da prosperidade é só um efeito colateral da burrice gospel aliada à malandragem tupiniquim.

Faça um teste: coloque um cartaz bem grande na frente de sua igreja com os seguintes dizeres: "Campanha do pensamento teológico no mês da Reforma". O que você acha que acontecerá? Parece que vejo alguém perguntando: "Ih! O pastor já vai fazer outra reforma no templo?" Pensar dói...

R. A. Torrey disse: "Uma teologia frouxa leva a uma moralidade igualmente frouxa". Esse é o retrato do que se chama "evangélico" hoje. Como pode indivíduos charlatães se proliferarem como praga nas igrejas e isso ser normal? Como pode programas de tv absurdamente mercenários serem vistos por uma miríade de pessoas que ainda ajudam finaceiramente essa fábricas de ilusões? Como pode um pregador à lá Silvio Santos empobrecido levar plateias ao delírio? Como?


Pensar ameaça. Quem pensa é condenado à solidão. Ao ostracismo (que, convenhamos, dependendo da igreja, é uma bênção). Quem pensa incomoda, "puxa o tapete" dos "Ali Babás e seus milhares de ladrões". Quem pensa desespera os "irmãos metralhas" da celestialidade bandida. Pensar é uma arma de grosso calibre deflagrando cápsulas de realidade na cara feia dos magos do poder.


Pense!


Até mais...


Alan Brizotti

domingo, 3 de outubro de 2010

Desespero profético: a obrigatoriedade da fala


No desespero profético é uma aberração um profeta que passe alguns dias sem “mensagem”. Pisar em qualquer igreja, qualquer “solo sagrado” é sinônimo de mensagem. Encontrar alguém em crise (principalmente se esse alguém for rico) é engatilhar uma mensagem animadora.
No desespero profético não há espaço para o silêncio. Todos os sons precisam estar ligados. Os profetas circunstanciais não podem ter o luxo de perder uma oportunidade. Se a profecia falhar, foi o outro que duvidou. Essa é a perfeita rota de fuga da irresponsabilidade profética.

A coqueluche profética odeia o silêncio porque ele confronta. Chama para a intimidade mais nua, e os profetas da atualidade são viciados em multidões – conspiram contra a intimidade. O quarto vazio assusta.

Edgar Morrin criou uma expressão intrigante para designar alguns lugares da atualidade: “no place” (numa tradução direta: “não-lugar”). Lugares do não-pertencimento, como os shoppings centers. Lugares de todos e de ninguém. Muitas igrejas estão se tornando “no places”, lugares onde a busca por outros interesses tira Deus do foco e das ânsias. Não pertencer a Deus é não pertencer a nada.

Quando a espiritualidade é forjada num chão de obrigatoriedades o desespero humano se impõe. A igreja precisa compreender que há uma implicação muito maior entre o profetismo verbalizado e a vivência profética. Entre um vocabulário profético e uma história de vida que leve os homens a Deus.

O desespero profético é o efeito colateral do status sobre a teologia deformada dos dons. Deus procura servos. Homens e mulheres que possam honrá-lo não somente no marketing da frase: “eu profetizo”, mas sim na alegria de servir aos amados na comunhão sincera da igreja.

O desespero profético é o vazio tatuado de poder. É a mania de procurar afirmação no retorno do povo. Essa tentação do retorno escraviza muita gente. Quando minha vocação é legitimada no que o povo quer de mim, então sirvo a outro senhor. Quando minha alma é honesta diante do Pai, então abomino os aplausos e corro para o abraço do meu Consolador.

Como escreveu Henry Scougal, professor de teologia na Universidade de Alberdeen, Alemanha, que morreu aos vinte e oito anos (1650-1678): “A vida de Deus dentro de nós, longe de prejudicar ou ferir alguém, nos leva a sentir qualquer mal que sobrevenha aos outros, como se tivesse acontecido conosco”.

Esse deve ser o espírito do profeta.


Até mais...


Alan Brizotti

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Política x politicagem: "diga-me com quem andas..."


O problema do Brasil não é a política, mas a politicagem. Entendo por politicagem a malandragem que deturpa essências. É o mentiroso que, vestido com a roupa linda da verdade, oculta sua lepra moral. É o sorriso falso que envenena o olhar que o recebe. É o estelionato das emoções. O politiqueiro é um ladrão de sonhos, um gigolô de desejos.

Quando o câncer da politicagem entra em metástase o primeiro a definhar é o voto. Aquele eleitor sincero, que sonha com um país honesto e digno é simplesmente assaltado em sua alma, tem sua retina prejudicada pelas luzes ofuscantes dos espetáculos que os magos da politicagem promovem, cujo ápice do show é a mágica de sumir com o dinheiro público.

Política é (um pouco) diferente. Nela cabem alguns honestos (note: alguns!) A política é uma arte, e como toda arte exige talento – e talento é para poucos. A verdadeira política é ambiente de vocacionados, nunca de aproveitadores. É lugar de se trabalhar com projeções, com esperanças e futuro. É um híbrido de profetismo com poesia. É para alguns.

A Bíblia tem os dois: política e politicagem. Tem um Davi e um Moisés, mas também tem um Saul e um Herodes. Em sua profunda liberdade, a Bíblia não esconde os erros de Davi e Moisés (política verdadeira assume seus erros), nem oculta as maracutaias de Saul e Herodes (e outros). A Bíblia é o livro dos humanos – assim mesmo, humanos! Com toda sua bagagem.

O que temos hoje no Brasil é muita politicagem, pouca política. Muita ilusão, pouca verdade. É o voto como barganha, negociação pífia. Moeda de troca. É o politiqueiro em sua irritante mania de achar que pode dispor da população e de seu voto como bem entender, que faz de seu mandato um passeio pela terra da falta de vergonha.

É a república de Odorico Paraguaçu, personagem da obra de Dias Gomes, O bem amado, que tem como meta prioritária em sua administração na cidade de Sucupira, a inauguração de um cemitério. De um lado é apoiado pelas irmãs Cajazeiras, do outro, tem que lutar contra a forte oposição liderada por Vladimir, dono do jornaleco da cidade. Por falta de defunto, o prefeito nunca consegue realizar sua meta. Nem mesmo a chegada de Ernesto - um moribundo que não morre - e a contratação de Zeca Diabo, um cangaceiro matador, lhe proporcionam a realização do sonho. Odorico arma situações para que alguém morra, mas o primeiro corpo a ser sepultado em Sucupira será o do próprio prefeito.

Se o ditado popular utilizado no título desse post fosse observado na hora de votar, acredito que muitos politiqueiros seriam descartados. Enterrados em suas próprias covas. Quem sabe um dia a política vença a polticagem, até lá que que Deus nos ajude...

Até mais...


Alan Brizotti

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