segunda-feira, 29 de março de 2010

"Ao Deus desconhecido": o Areópago é aqui! (At. 17. 22, 23)


Conta-se que um rabino passou a manhã inteira em fervente oração pedindo ao Eterno que revelasse seu verdadeiro nome. Por volta do meio-dia, o Eterno decidiu revelar ao insistente rabino seu verdadeiro nome, então o mestre passou o restante do dia e a noite inteira em desesperada oração: "Ó Eterno, por favor, faça-me esquecer teu verdadeiro nome!"

Tenho a sensação de que a gritante maioria das pessoas que frequentam os templos evangélicos não faz ideia de quem é Deus, do que seja uma teologia, do que é essa tal "presença de Deus". A fraseologia do que se canta nas igrejas revela o nível terminal em que se encontra a mentalidade evangélica brasileira.

Nessa igreja da banalização, temas como: pecado, cruz, salvação, santidade, louvor, são misturados na salada da autoajuda espiritualizada, no caldeirão místico dos que perderam o foco. Troca-se conversão por adesão a um sistema religioso de facilidades e bobagens tatuadas de sagrado. Trocam-se púlpitos por palcos, onde palhaços de uma espiritualidade circense demonstram seus "talentos"de Silvio Santos da mesmice religiosa.

Cantar com a mãozinha no coração fazendo cara de santo e beicinho choroso passou a ser a coreografia mais repetida, a configuração traumática dos herdeiros das Anas Paulas Valadões da vida (não estou dizendo que ela esteja errada, mas que a experiência pessoal dela, não pode ser normativa, doutrinária, paradigmática).

Dia desses ouvi a seguinte frase num "louvor": "Estamos desesperados pela tua presença, ó Deus". Esse desespero incrivelmente desaparece nas manhãs de domingo, nas Escolas Dominicais. Some nas noites das verdadeiras vigílias (aquelas onde a oração tem lugar principal). Esse desespero simplesmente inexiste nos cultos de ensino. Os desesperados estão apenas nas carnavalizações folclóricas da fé, nas micaretas teológicas, nessa espiritualidade "baiana" das Ivetes de Gizuz.

Cansei. Prefiro os "retrógrados" hinos da Harpa Cristã e dos Hinários. Prefiro o silêncio. Essa irrtante mania de uma espiritualidade da birra existencial perdeu o rumo, a identidade e o propósito.


"Há mais restauradora alegria em cinco minutos de adoração do que em cinco noites de folia".
A. W. Tozer


Até mais...

Alan Brizotti

domingo, 28 de março de 2010

Encontrar-se com Deus ainda é transformar-se em servo!


"Disse, então, Maria : Eu sou a serva do Senhor. Cumpra-se em mim segundo a tua palavra" (Lc. 1.38)


Gosto de imaginar o momento em que Maria recebeu a visita angelical. Por se tratar do inesperado, nós, como humanos, tememos. Mas o ser celestial começa a utilizar as Escrituras, chega com uma mensagem que muda a história, que apregoa a grandeza de Deus e de seus planos. Mesmo assim, Maria passa a questionar, seus olhos se voltam para a impossibilidade que aquele ser celeste apresenta e oferece.

Somos assim, diante do inesperado, do fantástico, do miraculoso, nossa tendência é testar a veracidade dos fatos. Não que isso seja um problema mas, não temos a capacidade de olhar diretamente para a promessa de Deus, olhamos através de nós mesmos, a partir de nossa humanidade, sob o peso da pecaminosidade. Olhamos sem perfeição. O que me chama a atenção na conversa do anjo com Maria é que não há euforia, não há um sentimento de misticismo exacerbado, não há o frenesi espiritualista característico das chamadas “manifestações” angelicais da atualidade.

A conversa é franca, normal, natural, rápida, e acaba gerando em Maria o senso do servir. A resposta dela ao anjo é curta, porém, perfeita: “sou serva!” Ela não se ufana por ser chamada de bendita ou agraciada. Ela não brinca com o sagrado, simplesmente questiona: “como se fará isto, visto que não tenho relação com homem algum?” (Lc. 1.34). Ela pensa, mesmo frente ao divino. Não vive uma fé sem racionalidade, mesmo sabendo agora que o Espírito de Deus vai se tornar uma realidade histórica, física, palpável, denunciada pelas mudanças revolucionárias em seu corpo.

A teologia do servir em Maria vale muito mais hoje do que a simples menção de seu nome. Maria nos ensina nesse texto uma preciosa lição de espiritualidade: somos servos, portanto, não podemos usar nosso Senhor, mas sim, servi-lo com nossas vidas. Maria abriga em seu ventre o salvador do mundo, recebe em seu corpo o Cristo de Deus, lhe oferece o amor de mãe, uma das mais tremendas formas de amor da experiência humana. Se existiu alguém que amou a Jesus, esse alguém foi Maria.

Um corpo humano gerando a humanidade mais perfeita. A verdade de Maria é a verdade insondável do amor. Encontrar-se com Deus ainda é transformar-se em servo!


Até mais...

Alan Brizotti

sábado, 13 de março de 2010

Des-escatologia


Estamos vivendo um acelerado processo de des-escatologia. A urgência das teologias do agora, filhotes do imediatismo exacerbado da atualidade, tem destruído o anseio do porvir. A esperança escatológica, outrora tão viva e, por vezes decivisa na caminhada cristã na história, tem amargado um esquecimento sutil. Iludidos pela sociedade da pressa, desistimos de esperar, como o coelho branco, de Alice no país das maravilhas, "estamos atrasados".

Grande parte da "culpa" desse declínio do anseio escatológico vem das construções teológicas extremistas do passado. Aquela "escatologia do desespero", ao estilo cinematográfico, apenas conseguia gerar manifestações do medo, e o medo não compartilha do amor. Em I João 4. 18, o apóstolo afirma: "No amor não há medo. Antes o perfeito amor lança fora o medo, porque o medo produz tormento. Aquele que teme não é aperfeiçoado em amor". O medo ajudou a lançar esperanças escatológicas no terreno longínquo do esquecer.

Outra causa desse declínio está mentalidade da ficção. Muitos cristãos já não acreditam na realidade celeste. Para muitos, se Jesus Cristo voltar, estragará nossos planos, nossos projetos futurísticos, nossas catedrais. Por que ir embora daqui, se já estamos tão bem istalados? "Essa estória de céu é só para incrementar uma ideologia que perde espaço no mundo da novidade". Essa mentalidade da ficcção tira as cores do horizonte escatológico, transformando as realidades celestes em suspiros de uma aventura idealizada, porém jamais vivida em desdobramentos reais.

Para muitos, céu é uma jogada de marketing.

A des-escatologia é a tragédia dos que desistiram de esperar. É a dor da ausência. É a tristeza teológica de sentir-se em casa aqui. É perder o olhar que visuzaliza a Jerusalém Celestial, a Pátria Gloriosa, o Excelente Porvir, a Cidade Santa, a Presença Sagrada do Pai de Amor. O incrível é que o número de pessoas infectadas pelo vírus da des-escatologia é assustadoramente crescente.

O dinheiro também tem papel decisivo nessa batalha. Ele produz uma contradição mortal: enquanto a fé cristã genuína nos promete o céu, o dinheiro promete a terra - e como ele está muito mais visível - optamos por suas promessas, ainda que elas não nos devolvam a paz! Como vivemos num mundo domindo pelo dinheiro (principalmente nos ambientes eclesiásticos), nossos sonhos não conseguem projetar-se no amanhã abençoado de Deus.

Não precisamos voltar às estradas assombradas por escatologias talibãs, mas carecemos do resgate da abençoada esperança. Não precisamos fugir do inferno, apenas fortalecer nossos laços com a pátria sagrada daqueles que nasceram de novo, e que aguardam ansiosamente pelo soar da trombeta.

Guardados na esperança, ouçamos a promessa fiel: "Eis que venho sem demora! A minha recompensa está comigo, para dar a cada um segundo a sua obra. Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o último, o princípio e o fim" (Ap. 22. 12, 13)

Alguém disse que "A esperança do cristão de chegar à glória não está no fato de que Cristo está nele, mas sim em o Cristo que está nele ser um fato".


Até mais...

Alan Brizotti

segunda-feira, 1 de março de 2010

Aniversário do blog: tempo de refletir...


Confesso: relutei muito antes de enveredar pelas trilhas virtuais da blogosfera. Sempre olhei o universo virtual como um filosófico distante para mim. Contudo, alguns amigos insistiram e acabei adentrando o espaço disputado (e para alguns, sagrado) da net.

O tempo passou... Alguns textos (e comentários) depois, o blog completa seu primeiro aniversário... Sua primeira volta ao redor do universo tecnológico. Passei a observar um pouco mais meu cotidiano, pois dele vem a maioria dos insights para os posts daqui. Comecei uma outra forma de ver a vida, através da janela (in)discreta da virtualidade.

Nunca contei quantos comentários, nem mesmo consigo ainda visualizar bem o alcance dos meus textos, entretanto, sei que a magia dessa tela tão (im)pessoal proporcionou uma festa das emoções: sorrisos, lágrimas, indignação, alegria, entusiasmo, fascínio, tédio... O blog é uma maneira de gritar para dentro - é uma intimidade exposta, uma discrição nada tímida. É um esforço de relações.

Aos que leram meus posts, obrigado! Tenho uma "surpresa" pra vocês: estou reunindo os melhores (?) textos e, se não for muita pretensão, lançando em livro dentro de alguns meses. Vai ser um desafio e uma insanidade, mas gosto de loucuras.

Não sei se devo continuar... Lewis Caroll, em Alice no país das maravilhas, diz sobre fazer "desaniversários", ou seja, diminui-se a vida a cada ano que passa. Espero que a vida desse blog apenas tenha sua própria força, continuidade. Espero que continue para edificar, auxiliar, facilitar trajetórias, abençoar... São nesses verbos que conjugo minha história.

Parabéns para todos nós!



Até mais...

Alan Brizotti

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