quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Deus depois do Haiti: a pedagogia do bagaço


A teologia depois do Haiti precisa mudar! Não podemos mais enxergar Deus cuspindo ódio soberano sobre humanos indefesos num encontro mortal de placas tectônicas, mas sim, enxergá-lo em cada debilitado que vence assombrosamente o tempo e sai, com vida, dos escombros. Precisamos ver Deus na vida, não no desespero teológico, fantasmagórico, das milhares de mortes. Não precisamos que pessoas morram para que nossa teologia se fortaleça. Se nossa teologia se legitima na desgraça dos outros, não é teologia, é sadismo.

É preciso destruir a teologia da confusão. Confundir a justiça de Deus com vinganças rasteiras de seres "humanos" mesquinhos em seu fundamentalismo alienante é subestimar o caráter de Deus. Confundir o desastre haitiano com "julgamento" divino por causa da religiosidade (leia-se expressão religiosa) é abortar o amor - e com isso - o próprio ser de Deus, pois a Bíblia afirma que "Deus é amor" (I Jo. 4. 8). Con-fundir Deus com a teologia da igreja é o cúmulo da pretensão. É a ignorância institucional.

Nossa teologia não define Deus: define o que pensamos (e queremos desesperadamente que seja verdade) sobre Deus. Uma teologia burocratizada e neurotizante tenta esboçar um Deus "amoroso" apenas enquanto andamos sob suas rédeas. Aliás, rédeas que a própria igreja (sempre a instituição) faz questão de inventar e fornecer. Daí vem nossa monstruosa incapacidade para lidar com quem falha, erra, fracassa, perde, peca, pisa na bola; com os hereges, os oprimidos, os desajustados, os falsos, os impostores. Fica absurdamente difícil colocar no mesmo abraço o Deus da teologia sufocante da igreja com a liberdade intrigante dos homens. O Éden ainda é um passeio distante. É nosso insistente problema com a graça.

Depois do Haiti, Deus não pode mais ser teologizado na masmorra da verborragia. Ou Deus é encarnado nas fúrias da vida, ou não é Deus (pelo menos, não é o bíblico). Não podemos mais nos satisfazer em pregar sermões belíssimos de uma oratória sem desdobramentos práticos, nos púlpitos confortáveis de nossas catedrais. É preciso sujar os pés nos escombros da história. Já não se trata de teologia, mas de pedagogia! É aprender de Deus, com os filhos de Deus, no mundo de Deus.

É preciso olhar por uma outra teologia: talvez uma ecoteologia. É a luta pela preservação do meio ambiente (luta que o "mundo" já faz). É a prevenção das tragédias. A minimização do que, às vezes, é inevitável. É enxergar Deus não apenas evitando o inevitável, em suas demonstrações abusivas de poder, mas ajudando-nos no esforço humano das re-construções, demonstrando seu amor. Ecoteologia é o não-desperdício da água e dos outros recursos naturais. É a denúncia furiosa do consumismo e do materialismo. A denúncia da corrupção. Da maldição do plástico nos rios e mares.

Que fique sob os escombros do Haiti todas as (des)construções teológicas de um Deus tirano, cruel, vingativo, mesquinho e burocrata. Que fique sob os escombros do Haiti toda a hipocrisia dos que se dizem cristãos mas não querem ter o coração do Cristo. Que fique no passado aquela teologia maldosa (via Pat Robertson) que descaracteriza o rosto belo de Deus, aquele que Zilda Arns mostrou tão bem.

O futuro é agora.


Até mais...

Alan Brizotti

domingo, 17 de janeiro de 2010

Haiti: onde está a "poderosa" igreja brasileira?


As cenas são chocantes: corpos espalhados pelas ruas, gritos sufocados sob escombros, o desespero por uma garrafa de água. Correria, violência, dor. Imagine, por um momento, o que significa olhar ao redor e perceber que tudo aquilo que você chamava de "vida", acabou. Casas e suas pessoas agora são pó e lembranças. As ruas são apenas a mistura estranha de mortos e destroços. Não encontro outra palavra a não ser: devastação.

Um cinegrafista amador captou o momento em que uma mulher, atônita ao observar as chamas de um prédio destroçado bradou desesperada: "o mundo está acabando!" Paradoxo intrigante: começa um novo ano, acaba o mundo dela. Em lágrimas, procurei por pessoas que nunca conheci. Chorei por crianças que nunca abracei. Tentei encontrar meios para, de alguma forma, minimizar o que é absurdo.

Lembrei de Jeremias em suas Lamentações. A devastação de sua amada terra fez seus olhos derramarem-se em fontes. Chorei pelos haitianos porque somos todos humanos, fronteiras, nomes e "raças" são apenas criações imbecis que abraçamos só para dificultar nossos esforços na convivência. Somos todos filhos do pó, filhos da Mãe Terra, filhos amados do Pai. Chorei não apenas como um brasileiro sentado em seu confortável sofá numa distância segura do caos, mas como um humano aflito cuja mesma distância apenas apavora ainda mais.

Em meio a todo o caos, uma fúria me invadiu: onde está a "poderosa" igreja? Aquela que berra todos os dias na televisão sobre seus poderes para curar, exorcizar e angariar muita grana! Aquela dos mega-pastores, mega-empresários, mega-pregadores, mega-cantores, mega-patifes! Aquela dos endinheirados bispos do poder! Aquela dos magnatas da fé que enganam, distorcem as Escrituras e, sob a fachada do sobrenatural, escravizam mentes ávidas pelo espetáculo!

Vejo uma grande mobilização de governos, entidades não-governamentais, civis, a igreja católica e suas pastorais, mas não vejo nada da Poderosa Igreja Evangélica Brasileira! Pense bem no que vou escrever agora: se essa tragédia não servir para mudar radicalmente os rumos da teologia triunfalista da atualidade no Brasil, descretamos a nossa morte!

Depois das atrocidades da Inquisição e do Nazismo, a teologia cristã experimentou novos rumos, se o Haiti e sua absurda tragédia não nos sacudir os alicerces teológicos, é porque já estamos tão mortos quanto os que entram na crescente estatística macabra do terremoto. Quanto dinheiro as igrejas evangélicas brasileiras movimentam por mês? Quanto se gasta com o luxo miserável dessas "pseudo-elites" tupiniquins travestidas de cristãos?

Assim como hoje julgamos pesadamente a Inquisão e o Nazismo, nos julgarão daqui a alguns anos pelo descaso com a natureza, pela insensibilidade com os que sofrem e pela farsa que toleramos socialmente todos os dias.


Vou chorar mais um pouco...


Até mais...

Alan Brizotti

sábado, 16 de janeiro de 2010

Uma palavra às famílias


“Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a benção e a maldição. Agora escolhe a vida, para que vivas, tu e os teus filhos” (Dt. 30. 19).


O século XXI é fortemente marcado pelos conflitos familiares. Uma espécie de arena familiar constante. Por causa da decadência do afeto, muitas famílias se transformam em mero ajuntamento de pessoas, desespero genético coletivo que descaracteriza a originalidade do corpo familiar. A grande verdade bíblica da condição humana é que Deus ama a construção familiar. Deus pensou o homem, no Éden, para a família: “Frutificai e multiplicai-vos” (Gn. 1. 28). Antes mesmo da entrada do pecado no mundo, Deus já havia abençoado o homem com a dádiva da família

Deus se revela através de uma família feliz e abençoada. O mundo clama por famílias que possam redefinir palavras esvaziadas como: carinho, amor, alegria, paz, verdade, liberdade, justiça. A celebração de Deus no lar é a base do fortalecimento dos laços familiares e, principalmente, da manutenção de uma espiritualidade do equilíbrio e da celebração do outro. Numa sociedade que ama o individualismo patológico, a celebração da família nos aproxima e abençoa.

É a dádiva da unidade. Famílias onde a unidade é negligenciada correm o sério risco de se tornarem um espaço impessoal, onde um grupo de estranhos mora sob o mesmo teto. Uma vez que batalhamos pela unidade, Deus nos ajuda e guia, pois a verdadeira unidade tem sua base no que Deus é: Trindade, uma unidade de ser, numa amorosa pluralidade de pessoas.


Não faltam inimigos querendo a destruição da família no século XXI. Inimigos como a indiferença, o aborto, as drogas, as más companhias, o consumismo, tentam a todo o momento aniquilar nossas famílias. Quando a família mantém sua adoração a Deus em primeiro lugar, vence esses inimigos, porque Deus honra aqueles que o adoram, aqueles que, no meio das confusões desse tempo, o celebram como Senhor supremo da vida.


Nenhum inimigo da família pode prevalecer quando nossas casas são marcadas pelo precioso sangue de Jesus. Quando estamos firmados em seu amor, enraizados em sua misericórdia e embasados em sua Palavra, temos forças suficientes para “destruir fortalezas” (II Co. 10. 4) e para dizer ao mundo que nossa casa é lugar de vida.


Não é fácil viver num mundo que conspira cotidianamente contra a paz das nossas famílias. Precisamos restaurar os laços familiares, para que, unidos, possamos prestar ao Senhor o mesmo culto, no templo e na casa, na rua e na intimidade. Quando enfrentarmos e vencermos os desafios que assolam a construção do lar, vamos experimentar as mais tremendas dimensões do relacionamento com Deus – o Pai – aquele que nos conhece e ama assim como somos.


Em sua casa, os corações já estão convertidos uns aos outros? (Ml. 4. 6)





Até mais...


Alan Brizotti

sábado, 9 de janeiro de 2010

A bênção de poder olhar para trás


“Fui moço, e agora sou velho; contudo, nunca vi desamparado o justo, nem a sua descendência a mendigar o pão”. (Sl. 37.25)

Sempre ouvi pregações do tipo: “Não olhem para trás!” Contudo, há dias em que o exercício do retrovisor é produtivo, desafiador e belo. Gosto da companhia dos irmãos mais velhos, suas experiências, cabelos brancos, fantásticas histórias que nos levam ao aprendizado. Tolo é aquele que desrespeita o dom da velhice. A Bíblia é repleta de exemplos de homens que aprenderam a envelhecer bem.

Temos o exemplo de Jó, que a Bíblia faz questão de enfatizar: “Então morreu Jó, velho e farto de dias” (Jó 42.17). O exemplo de Davi, que vive para Deus e, na velhice, pode dizer: “Agora sou velho”. Ele não termina a vida com um sentimento de revolta, de solidão esmagadora, de inutilidade ou rancor ao tempo; termina sua história como um salmista magistral deixando versos como herança. Qualquer um pode ser jovem, leva pouco tempo para se conseguir esse “feito”, contudo, para ser velho não, exige talento, o supremo talento da sobrevivência.
A bênção de poder olhar para trás acompanha os que vivem com Deus. Robert Southey escreveu: “Nos dias da minha mocidade, eu me lembrei de Deus. Na minha velhice, ele não tem esquecido de mim”. Esse sentimento é o ideal, fruto de quem aprendeu a velejar bem no oceano da graça, fruto mágico do amor, do carinho excelso de Deus. A beleza da vida em Deus está nas pequenas descobertas, espetáculos silenciosos que nos fazem valorizar cada volta que os ponteiros do relógio de Deus encerram.

Irineu dizia: “A glória de Deus é um homem cheio de vida”. A velhice pode nos ensinar muito. Basta ler “O velho e o mar”, de Ernest Hemingway, ou o relato emocionante de Jacó abençoando seus filhos (Gn. 49). Histórias que mostram a beleza que existe na experiência. Sei, entretanto, que na velhice nem tudo é belo. Há limitações naturais, cansaço que insiste em desafiar, memória que abusa do “jogo de esconder”, complicações do corpo, conflitos de gerações, mas, é bom olhar para trás e sentir que valeu à pena. “Sou velho”, Davi suspira e continua a abraçar a esperança: “Nunca vi desamparado o justo”. Esse sentimento precisa ser resgatado.

Por isso é tão importante olhar para trás e viver bem. Quando criança, a dependência; quando adolescente, as incríveis descobertas; quando jovem, a multiplicidade de sensações; quando adulto, o tempo das grandes decisões; quando velho, a certeza de que a vida foi vivida de verdade.


Até mais...

Alan Brizotti

domingo, 3 de janeiro de 2010

Hospitalidade: a pedagogia do outro


A hospitalidade se define sempre a favor do outro. É um movimento na direção do outro, uma poesia da acolhida. Uma alta funcionária do governo do Peru, que fora antes assistente social em regiões de indígenas amazônicos, ao visitar uma comunidade da nação Achuar, foi recebida com esta canção de hospitalidade: “Pomba, que deixaste teu ninho e que vens de tão longe, não fiques triste. Nossa comunidade é uma grande árvore que abre seus ramos e te acolhe em seu ninho. Pomba fique conosco”.

A hospitalidade é definida na Bíblia como um dom (I Pe. 4. 9). Abraão teve uma experiência linda de hospitalidade (Gn. 18. 1-16). O escritor da epístola aos Hebreus chega a afirmar: “Não vos esqueçais da hospitalidade, pois por ela alguns, sem o saber, hospedaram anjos” (Hb. 13. 2). O apóstolo Paulo, escrevendo a Timóteo (I Tm. 3. 2), afirma: “É necessário, pois, que o bispo seja [...] hospitaleiro...” (grifo meu). A acolhida traz à luz a estrutura básica do ser humano. Existimos porque fomos acolhidos: a generosidade da mãe, o colo do pai, a companhia dos amigos, etc. Tudo isso são imagens da hospitalidade em nossa vida diária.

Abraão e as dimensões da hospitalidade (Gn. 18.1-16)

A questão do olhar

O texto de Gênesis 18 mostra-nos com profundidade, as dimensões e a beleza da hospitalidade. Logo no versículo 2, há uma proposital repetição do verbo ver! O versículo diz: “Levantou Abraão os olhos, olhou e viu três homens em pé na sua frente. Vendo-os, correu da porta da tenda ao seu encontro, e prostrou-se em terra”. Ora, se o texto afirma claramente que os três homens estavam “em pé na sua frente”, dá para presumir que Abraão os teria visto, não? Mas o texto faz questão de frisar que ele, com certeza, viu, olhou, atentou para eles.

O que isso tem de tão importante? Isso nos assegura a base da hospitalidade: a questão do olhar! O olhar sempre representa um conhecimento da presença do outro, e, por parte do estranho, do que se aproxima pedindo abrigo, uma súplica silenciosa para um possível encontro. Negar-se a olhar é pretender tornar não-existente o que existe e grita. Abraão olhou, viu, aceitou o fato de que o outro carecia de seu auxílio, de sua acolhida!

A questão da sensibilidade

Sem a sensibilidade não há movimento de ida ao encontro do outro. Não há socorro, não há celebração. Há um termo grego que traz as mais belas dimensões da sensibilidade: patós (sentimento). Quando a sensibilidade está aflorada em nós, o patós subjuga o lógos (razão, lógica). O sentimento domina a lógica. Abraão não raciocina no sentido de que aqueles homens fossem estranhos, e, portanto representassem uma ameaça, mas parte do patós, com seu ato de “prostrar-se em terra”. Somente os sensíveis podem acolher. O mundo embrutecido não permite que a veia da sensibilidade nos guie para além das garras da lógica.

A questão da acolhida

A acolhida não é feita apenas da verbalização do encontro, mas de gestos que se concretizam na história:

Convite para o descanso: no versículo 4, Abraão diz: “...repousai debaixo dessa árvore”. A promoção do descanso é gesto de humanidade que enxerga no outro a necessidade de recobrar o ânimo. O gesto de oferecer a sombra de uma árvore é o símbolo do enxergar da necessidade de uma brisa, de uma refrigeração do calor da vida.

Oferecer água fresca: essa água aponta para o gesto de oferecer vida. Água é vida! No versículo 4, Abraão diz: “traga-se agora um pouco de água, e lavai os pés”. Lavar os pés é o supremo grau de acolhida e serviço. É um indicativo de que a convivência generosa e aberta é livre da poeira do passado.

Convite para comer: a hospitalidade e a convivência se concretizam na comensalidade. No versículo 5, Abraão diz: “Trazei um bocado de pão”. Nos versículos 6, 7 e 8, a refeição se amplia. No âmbito da hospitalidade não se trata apenas de uma nutrição, mas é a consumação de uma relação e de uma convivência. É compartilhar do que você come todos os dias, ou seja, é um convite à sua vida diária!

Servir de forma abundante: uma refeição especial, não um serviço burocrático de um cotidiano cansativo. Abraão oferece o melhor: no versículo 7, o texto faz questão de frisar que o bezerro era “tenro e bom”. É a máxima descentralização de si mesmo e a máxima concentração no outro.

A base maior da hospitalidade é o reconhecimento do outro. O Novo Testamento afirma que o próprio Deus por sua encarnação se fez outro em Jesus. É no outro, portanto, que encontramos a máxima densidade da presença de Deus. Isso é hospitalidade.

“Se vivermos justapostos acabaremos opostos, por isso, precisamos sempre ser compostos, entrando em alguma composição para conviver, absolutamente juntos” (Martin Buber, filósofo judeu-alemão, em “Eu-tu, por uma democracia sócio-cósmica”).

Até mais...

Alan Brizotti

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