domingo, 30 de agosto de 2009

Vou andar na contramão!


Gosto da contramão. A sensação do vento acariciando meu rosto só é possível porque o vento sopra no sentido contrário. Quando o assunto é a igreja evangélica no Brasil, não é fácil andar na contramão. Estou num ambiente onde é proibido discordar. Ainda predomina a ideia de que para discordar é fundamental que se proponha soluções. Acontece que as soluções que tenho, ninguém quer, e as que quero, poucos ousam ter.

Na arena dessa mentalidade, confunde-se o discordar com julgamentos ácidos. Confunde-se a ideologia com a pessoa. Tudo fica sob suspeita. Tudo ganha duplo sentido. O reinado da confusão adora quando o herege está no banco dos réus. Preciso deixar bem claro: gosto dos hereges! Sempre fui apaixonado pela clandestinidade que desafia o status quo.

Vou andar na contramão porque não me escondo sob o manto perigoso do poder. Não quero bajulação. Não quero estar no mesmo espaço dos seres "angelicais" que assumem para si prerrogativas divinas para tudo. Sou humano. Parafraseando Nietzsche: "Demasiado humano". Com todas as implicações e delícias. Humano com todas as maravilhosas contradições.

Vou andar na contramão porque não coloco a máscara da piedade. Assumo: sou falho, pecador, carente da graça, crítico em busca de mudanças, mirando esperançoso o horizonte utópico, sobrevivendo na terra encantada dos alienados.

Vou andar na contramão porque não falo a língua dos profetas, não tenho a grana dos apóstolos da prosperidade, muito menos a lábia dos vendedores de ilusão. Como canta o sumido: "sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro..."

Vou andar na contramão porque não estou na mira dos fotógrafos de celebridades, nem sob as luzes ofuscantes dos palcos da badalada mídia. O barulho dos aplausos ainda não ecoou para mim. Ainda sou acompanhado pela interrogação: "quem é ele?".

Vou andar na contramão... feliz por continuar andando. Na via de mão única da igreja (antigamente chamavam isso de "porta larga" - Mt. 7.13) há espaço para muita esquisitice. Nesse "samba de uma nota só" que se canta hoje, todo mundo é santo. Não é por acaso que o exército dos des-via-dos cresce tanto. Tem muita gente buscando outra via.

Indo na contramão dá para enxergar alguns semblantes. Dá para notar alguns rostos que desaprovam esse ritmo acelerado da pluralidade caótica do evangelicalismo tupiniquim. Pelo menos dá para ver Jesus em alguns irmãos.

Por isso ainda ando. Ainda escrevo. Ainda...


Até mais...

Alan Brizotti

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Teologia da indecência


É indecente quando pastores aumentam gritantemente seu patrimônio enquanto a maioria dos membros da igreja faz verdadeiros malabarismos financeiros para conseguir pagar o dízimo e o aluguel. Ainda mais indecente é saber que esses membros recebem doses monstruosas de ilusão, via teologia da prosperidade, para que se acostumem nessa perversa seletividade arbitrária nojenta. Afinal, se não existir o miserável, quem vai alimentar a indústria da prosperidade? E, se não existir o pastor magnata, quem vai "garantir" os resultados? Lógicas indecentes.

É indecente quando a membresia honesta das igrejas fecha os olhos e tenta se iludir chamando tudo isso de "fim dos tempos". Tudo o que os indecentes mais querem é uma escatologia do desespero, da fuga. Enquanto isso, paraísos fiscais substituem o céu por aqui. É indecente saber que não existe pecado para os que têm credencial.

É indecente cantar tanta coisa ridícula e ainda culpar o Espírito Santo pela tal inspiração (ou seria alucinação?). É indecente pagar somas astronômicas a cantores e pregadores que fazem da fé a senha de sua conta bancária obesa. A bandidagem eclesiástica é mesmo milagrosa: faz sumir seu suado dinheirinho e ainda deixa você sonhando... Não me lembro onde li essa frase, mas serve: "não desista do seu sonho, apenas vá a outra padaria". O pão que a igreja vende envelheceu...

É indecente a passividade silenciosa do povo. Por mais antigo que seja o que vou dizer, ainda precisa ser dito: o povo tem o poder! Só esquece disso. Diga não aos indecentes! Diga não a essa pulpitocracia canalha, a essa sacanagem divina, a essa pilantragem sagrada, a essa malandragem eclesiástica. Envie esse post pra todo mundo. A net é uma arma poderosa!

Não compre CD'S e DVD'S de cantores e pregadores mercenários. Não os convide para seus congressos. Há tantos cantores e pregadores honestos e abençoados "guardados" no anonimato. Não aceite tudo que os pastores dizem. Questione. Duvide. Exija explicações bíblicas genuínas. Cuidado: ano que vem é ano de eleição. Não venda seu voto! Ao invés de gastar seu dinheiro para ir aos carnavais evangélicos bizarros, contribua com orfanatos, creches, asilos, ong's, casas de recuperação, hospitais.

A teologia da indecência adora bodes expiatórios, portanto, se você quiser descarregar sua raiva em mim, vá em frente! Pode me chamar de herege (é uma honra, pois é maravilhoso ser contra essa indecência toda). Pode me chamar de rebelde (inclusive, tenho um pôster do Che bem à minha frente). Ah, se quiser pode até me mandar pro inferno, pois nesses casos, o inferno é o lugar para onde os covardes mandam os lúcidos.

Até mais...
Alan Brizotti

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Deus demais é idolatria


"Deixemos o céu aos anjos e aos pardais" (Heine, Deutschland, caput I)

Fundo do poço à vista! Perdeu-se o respeito por Deus. Deus tem se tornado uma espécie de tragédia otimista do brasileiro. É a desculpa dos que não querem mudar. Camuflados sob o tal de "sentir o que o coração de Deus sente", a igreja sente de tudo, menos vergonha. Estão transformando Deus numa espécie de "gênio da garrafa", aquele que satisfaz meus três mediocres desejos, e depois é devolvido à solidão da garrafa.

Deus tem se transformado numa marca de alta rentabilidade. Seu nome circula por todos os lados: de adesivos risíveis (a velha "criatividade" duvidosa dos marqueteiros cristãos), a placas pífias de igrejas, Deus está em todas! (Será?).

O termo "Deus" tem se tornado um ornamento verbal. Com isso, o estelionato dos conteúdos segue firme. Eugene Peterson escreveu: "Quando reduzimos Deus a um nome entre outros, mais cedo ou mais tarde, todos os outros nomes se tornam despersonalizados, meras cifras empregadas para identificar outros de acordo com sua função ou papel, sem levar em consideração a dignidade e a reverência inerentes a cada pessoa e a cada coisa".

É a mania estranha de usar o nome de Deus para nomear o inominável. E não importa qual nome: Deus, Jesus ou Espírito Santo, o que interessa é associá-lo ao sucesso da teologia em questão. Juan Árias, jornalista e escritor, em seu livro "Jesus, esse desconhecido", diz: "Só em um lugar vi escrito com grandes letras, com tinta negra, o nome de Jesus, onde ele provavelmente se teria sentido à vontade. Onde possivelmente seu nome não estava escrito em vão. Vi-o numa rua do Rio escrito em uma caixa de madeira que um menino sem casa e sem família levava na mão com uma escova velha e um pouco de graxa, tentando convencer os transeuntes de que o deixassem limpar os sapatos". Heresia?

O mandamento de Deusteronômio 5. 8-10 diz sobre não fazer imagens de escultura. A igreja evangélica não faz as imagens - não no templo - mas faz na mente e na alma! O problema é que, secretamente, gostamos dos ídolos, porque alimentamos uma oculta ilusão de controle. A adoração dos ídolos sempre foi o jogo religioso predileto. Sem falar que nossos ídolos - de carne e osso - com os bolsos cheios das ofertas astronômicas, são piores e mais perigosos que as imagens.

Chega de tanto Deus! Ouso pedir silêncio! Essa banalização do sagrado precisa parar. Hé Deus demais e caráter de menos. Deus demais e absurdos demais. Enquanto essa teologia canalha continuar solta, de tanto falar em Deus, acabamos nos demonizando. Paradoxal não? "Deus" demais revelando demônios ocultos. Gritamos sobre uma presença de Deus, mas será que sentimos a dor de sua ausência?

Deus demais é idolatria. Diabo demais é fetiche. Crente demais é fanatismo. Bendito seja o equilíbrio!

Até mais...

Alan Brizotti

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