quinta-feira, 30 de julho de 2009

Deus em cinco (outras) palavras


Deus gosta de palavras. Ele sempre trabalhou com elas. É um caso de amor com essa coisa do verbo. Deus é um apaixonado pelo verbo, tanto que chega a "brincar" com isso. A Babel (Gn. 11) é uma licença poética divina promovendo o espetáculo dolorido da perdição/salvação do vernáculo. Em seu passo mais ousado - Encarnação - ele próprio se denomina "o verbo" (Jo. 1). Como um simples escritor, acredito poder captar um pouco desse prazer...

Tenho buscado Deus em palavras outras. Tenho procurado por ele em palavras que, quase por definição, afastam-nos dele. Encontrar Deus nas palavras exige saber dançar nesse eterno baile dos dois: de um lado, palavras propondo encontro, do outro, uma brincadeira de se esconder pra se revelar. Como dizia Karl Barth, Deus é "totalmente outro".

Deixe-me mostra algumas das palavras onde Deus gosta de se esconder:

Angústia: Por que será que a angústia sempre me leva a pensar em Deus? Seria sua estranha forma de me convidar para a vida? Seria uma espécie de eco divino do Getsêmani? (Lc. 22. 39-46). Gosto da angústia. Quem têm asas gosta de abismos. Por ela poemas brotam, ela me impede de assumir prerrogativas divinas. Através dela sei que sou apenas humano. Benditas sejam minhas angústias... (Sl. 18.6)

Ódio: Há coisas que preciso odiar. Odeio a injustiça, pois ela afirma a falta de amor e enobrece espíritos de porco. Odeio a malandragem dos que tentam levar vantagem em tudo - o câncer do jeitinho. Odeio igrejas onde as pessoas são violentadas em seu desespero, vistas como "caixas eletrônicos existenciais", esvaziadas de seu conteúdo humano, transformadas em matéria-prima dos canalhas da celestialidade bandida (Sl. 139. 21, 22).

Preto: Eu vejo tudo na cor preta. No evangelicalismo abobalhado de hoje tudo que tem a cor preta ganha conotações diabólicas, menos o olhar de quem assim o enxerga. Vejo no preto a beleza magistral da noite e a consequente esperança do dia. Alguém disse que o preto é "o acúmulo dos azuis". O preto dos escravos compõe orgulhosamente meu DNA. Amo o fato indiscutível de ser fruto da mistura humana desse caldeirão cultural chamado Brasil. Quando fecho os olhos, e tudo fica preto, a oração que brota não tem cor... (At. 8. 36-38)

Ateu: Nietzsche dizia que "somente aquele que tem uma fé profunda pode se dar o luxo do ceticismo". Na verdade, Deus não existe, quem existe sou eu. Deus é! Ele criou a existência, portanto, é maior do que sua criação. Aqui surge algo interessante: tanto aqueles que afirmam ardorosamente a existência de Deus, quanto aqueles que ferrenhamente a negam são ateus! Ateus abraçados ao próprio delírio. (Sl. 14)

Eu: Deus está em mim? Eu estou em Deus? Costumamos pregar, cantar e escrever sobre a presença de Deus, mas e sua ausência? Eu revelo Deus? Pelo menos uma certeza absoluta eu tenho: eu não sou Deus! Não sou apóstolo, profeta, Ph'Deus ou vidente, eu sou apenas eu... (I Co. 15.10).

Até mais...

Alan Brizotti

sábado, 25 de julho de 2009

Enfim, temos uma igreja "brasileira"


Recebi um e-mail celebrando uma "conquista" do mundinho gospel. Segundo a notícia, um cantor de renome vai se apresentar na festa do peão de Barretos (e como adora o picadeiro gospel, "a maior festa do peão do Brasil"). Imediatamente li os comentários sobre a notícia e, para minha angustiante certeza, a grande maioria dizia: "que bênção, temos um artista gospel na mídia secular", ou "gospel também é cultura (sic)", ou pior ainda "vamos exaltar o senhor Jesus na maior festa de peão do Brasil". E por aí vai... só não sei pra onde...

Após a leitura dessa nova "conquista" dos "levitas", compreendi uma coisa: enfim, temos uma igreja "brasileira". Aprendemos a assimilar o pior do Brasil. Aprendemos a "tomar posse" daquilo que deprecia o país. Aprendemos a piorar o que já era ruim.

Temos uma igreja dos espertos. Nos bastidores dessa igreja "brasileira" a pilantragem eclesiástica rola solta. O mandamento da atualidade é: "levarás vantagem em tudo". Se você for um empresário, cuidado, vão encomendar profetadas, declarar um crescimento tão avassalador para sua empresa que você vai acabar tendo sérios problemas com a Receita Federal. E a lógica dessas declarações todas é: financie nosso programa na TV.

Temos uma igreja sem Cristo. Na cultura brasileira, Cristo sempre foi visto com reservas. Um Cristo sem respeito, você encontra sua imagem pelas borracharias do páis espremida entre fotos de mulheres nuas. Um Cristo frágil, sempre apresentado amarelo, pálido, morto. Um Cristo sem poder, por isso é que sempre vem acompanhado de anjos, sozinho, é chato. Um Cristo culpado, tanto que o ditado popular chama de tolo aquele que "é pego pra Cristo". A igreja "brasileira" vive um cristianismo sem Cristo. Talvez seja por isso que ela ame tanto o Antigo Testamento. Levita sim, viúva pobre jamais!

Temos uma igreja da guerra. Talvez venha daqui essa mania bélica do mundinho gospel. É tanto poder que precisamos fabricar inimigos. O discurso é sempre o mesmo: "seu inimigo vai ser derrotado", e esse revanchismo teológico acaba por ser a essência de cada culto. O pior é que, o inimigo é todo aquele que ousar discordar! Se você duvidar, pronto, recebe na hora a "marca da
besta": inimigo!

Temos uma igreja apaixonada pelo poder. Ano de eleição vira um pesadelo. E quanto mais a igreja cresce (ou será inchaço?), mais os abutres do poder chegam até ela. Somos cada vez mais uma igreja de Herodes, ao invés de uma igreja de Cristo. Nossos templos faraônicos, nossos rostos nas colunas sociais, nossos desfiles de carros e dólares apenas constatam o quanto amamos o poder de ter, e não o poder de ser. É bom ser rico, óbvio! Mas não é o mandamento maior da nossa fé.

Temos, enfim, uma igreja "brasileira". Entre aspas, porque o brasileiro é muito melhor do que isso. Entre aspas porque esse brasil das sombras (com letra minúscula mesmo), ainda que apelidado de "luz", já se perdeu em sua própria dor. Para ser sincero, esse é um caminho sem volta.

Como escreveu Warren Wiersbe: "O homem falhará desgraçadamente em tudo aquilo que fizer sem Deus, ou pior ainda, terá sucesso".

Até mais...

Alan Brizotti

terça-feira, 14 de julho de 2009

"Senhoras e senhores, com vocês: O Sagrado!"


O professor Gabriel Perissé diz que estamos vivendo na "Idade Mídia". A igreja midiática já se acostumou a esse tempo. Existe uma gritante espetacularização do sagrado, glamourização do divino e prostituição da adoração. É a igreja dos flashes e dos palcos. A teologia da vitrine. A forma cinematográfica de crer. De igreja da Palavra, nos transformamos em igreja da imagem.

Na igreja católica, as missas/shows e os padrestars, assustam até mesmo os próprios católicos. Quem poderia imaginar, dez anos atrás, um padre metrossexual? Um padre que, enquanto canta, ouve berros de "gostoso", "lindo"... Um padre galã? No meio evangélico a coisa ainda é pior! O estilo "pop star" de ser invadiu a rotina eclesiástica a tal ponto que já está se tornando normal.

É comum encontrarmos shows gospel nas casas noturnas. Dê uma volta por São Paulo, por exemplo, e vai encontrar nos cartazes espalhados pela cidade propagandas dos cantores evangélicos disputando espaço nas boates e casas de shows com os cantores seculares. Os templos já não servem. Templos agora são construções descartáveis.

Chegamos a um nível crítico: já nem precisa mais ser "crente" para gravar um DVD ou um CD gospel. Basta aprender direitinho o nosso "evangeliquês", fazer umas "caras e bocas", inventar uma ou outra revelaçãozinha, citar dois ou três "versículos" bíblicos (mesmo que sejam ditados populares "batizados" de versículos), e profetizar! Ah, o lance é profetizar!!!

A mercantilização do sagrado, que é responsável pela morte da pregação, também vem asfixiando o louvor. E o que é mais triste ainda é que não reagimos a isso. Vou antecipar as críticas a esse artigo/desabafo: "ao invés de criticar, você deveria olhar para a sua vida"; "cada um tem seu ministério, não julgue"; "vamos orar..." Enquanto essas muletas forem usadas, estaremos condenados ao medíocre.

O que fazer? Destruir! Você que é pastor de igreja, não convide celebridades, mesmo que isso não leve multidões ao seu templo, desista da tentação da multidão! Você não foi chamado para dirigir um espetáculo televisivo, mas uma comunidade de fé que ainda ame a presença de Deus!

Desliguem a televisão! Chega de programas medíocres de pastores vazios. O tempo que gastamos assistindo milagromanias duvidosas é muito melhor aproveitado na leitura de bons livros. Ao invés de assistir programas dos pedintes da religiosidade ("uma ofertinha pelo amor de Deus"), leia o Eugene Peterson, o John MacArthur, o Philip Yancey, o James Houston, o Elienai Jr, o Ricardo Gondim, o Jorge Barro, o Robinson Cavalcanti, o Frei Beto, o Leonardo Boff, os clássicos da literatura brasileira e mundial.

Uma amigo meu diz que não acredita que o homem veio do macaco, mas acredita que ele vai se tornar um! Essa teologia circense do bizarro, pelo que vejo, está longe de acabar... é, K. Lindberg tinha razão: "Não é que eu não goste de Deus; é o fã-clube dele que eu não suporto".

Até mais...
Alan Brizotti

segunda-feira, 13 de julho de 2009

"A canção do tolo": o hit do momento


“Melhor é ouvir a repreensão do sábio do que ouvir a canção do tolo”. (Ec. 7.5)

Podemos cantar a canção da vida?

Os rabinos costumam fazer uma interessante pergunta: “Qual seria a qualidade mais elevada preparatória no caminho da espiritualidade: o amor a Deus o medo de Deus?” Confesso que não tenho a resposta. Infelizmente, nossa mentalidade pós-moderna oferece sempre os atalhos da fé, respostas rápidas e impensadas. Mas a verdade é que não tenho a resposta ainda. Estou em busca, peregrinando em mim mesmo, vasculhando esse terreno fértil chamado espiritualidade.

Como pode a “canção do tolo” exercer tamanha influência? Entendo por “canção do tolo” a melodia triste do comodismo (“O tolo cruza os braços, e come sua própria carne” Ec. 4.5). A canção do tolo também é a inversão de valores (Ec. 10.6), o oportunismo criminoso que engole tudo e todos. É também o riso mascarado que é produto do desespero, o estelionato das emoções (Ec. 7.6), o sentimento medíocre de que é melhor produzir um sorriso fingido a permitir uma lágrima honesta. Essa canção mesquinha é a conspiração contra o silêncio, o barulho produzido para abafar a voz baixa que guia a vida (Ec. 9.17). A canção do tolo é a ausência de palavras sábias (Ec. 10.12), o murmúrio que alimenta intrigas.

O único meio para se evitar essa canção é o exercício contínuo e pleno de um coração adorador. Esse exercício consiste em tentar equilibrar o amor a Deus e o temor que lhe é devivo, caminhar confiante nas trilhas tortuosas da alma, encontrar em nós mesmos a chave que abre as portas do louvor. Louvar é muito mais do que o simples cantar. É oferecer a Deus o coração quebrantado, o olhar que anseia Cristo, a vida que insiste em imitar o exemplo do Mestre. Em resumo, ser quem sou!

Afinal, quem é o tolo? É o homem que nega a Deus sem nunca tê-­lo conhecido. H. Jackson Brown, disse: “A maior de todas as ignorâncias é rejeitar uma coisa sobre a qual você nada sabe”. Por isso, o adorador tem uma vantagem: pode escolher viver ou cantar a canção do tolo. Qual será a sua escolha? O caráter do adorador é o caráter de Cristo, a identidade que sabe que tem sua origem em Deus, e por isso, vive para adorá-­lo. William de St. Thierry, escreveu: “Conhece-­te a ti mesmo, visto que és minha imagem. Então conhecerás a mim, a cuja imagem és feito, e me acharás em ti mesmo”.

Como disse Teresa de Ávila: “Ó Deus, não te amo, nem mesmo quero amar­-te, mas desejo querer amar­-te!”
Essa é a canção do sábio.

Até mais...
Alan Brizotti

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