domingo, 28 de junho de 2009

Tempo: a presença


“Aos quinze anos você viaja atrás de diversão. Aos trinta e cinco, atrás de descanso. Aos cinqüenta e cinco, atrás dos quinze”. (Propaganda antiga)

Caetano Veloso, em uma de suas belas canções, diz que o tempo é um “compositor de destinos”. Não sei bem se temos um destino ou um desatino existencial, mas sei que o “decifra-me ou devoro-te” do tempo está sempre aí pelas esquinas do ser.

Quanta coisa foi dita, poetizada, cantada, chorada, escrita, pensada sobre essa “outra coisa” chamada tempo! Cada contexto histórico, cultural, religioso, político tenta decifrar a seu modo esse gigante sem face. Alguns o celebram, outros o demonizam. Nas horas calmas, ele parece deslizar lentamente pelo relógio de parede; nas fúrias da “deusa/pressa”, parece equipado com as últimas tecnologias da alta velocidade.

Quem é esse ser-coisa-entidade-fato que parece adorar as sombras? Aos atormentados, desajustados noturnos, oprimidos, marginalizados, ele é uma espécie de desafio cotidiano. Aos chamados “cidadãos comuns”, gente certinha, estudantes, profissionais, líderes religiosos ou políticos, ele é uma espécie de aliado perigoso sempre disposto a negociar suas altas quantias de surpresas.

Afinal, esse tal de tempo é “ele” ou “ela”? Alguns afirmam sua “masculinidade” reconhecendo-o como o dia, o momento, o século. Outros enfatizam sua “feminilidade” chamando-o de a história, a noite, a eternidade. Seria o tempo uma espécie de “entidade assexuada”?. Seria uma manifestação cósmica acima das questões de definição, tão próprias dos mortais?

Podemos ter alguma certeza sobre esse “moleque travesso”? Talvez, a grande certeza que temos sobre o tempo é que ele passa! E como passa! Ele é absolutamente avesso ao oficial! Não respeita sobrenome, posição social, raça, credo, cultura. Sua “clandestinidade” desafia a tudo. Ele é capaz de esculpir as mais duras rochas. Ele muda o curso dos rios, altera geografias centenárias. Ele é capaz, inclusive, de ignorar o todo-poderoso dinheiro! Se você é rico ou pobre, aos “olhos do tempo” simplesmente não há a menor importância. Ele é senhor de suas próprias viagens.

Mas, nem tudo no tempo é chato. Há uma dimensão onde ele se torna fascinante. Ele é amigo dos que ousam viver. Quando a gente resolve celebrar os momentos ao invés de hostilizá-los, gastar cinco minutos para ver o sol nascer ou dormir, deixar, por alguns minutos, a água fria da chuva desmanchar o penteado. Quando a gente adorna os poucos segundos que compõem a frase: “eu te amo”, o tempo é transformado.

O que mais gosto de ouvir são aquelas expressões que desarmam o tempo. Expressões como: “o tempo das frutas maduras”; “o tempo de nascerem os dentes do bebê”; “o tempo da primavera”; “o tempo do afeto”. Essas expressões afirmam que até mesmo o “senhor das próprias viagens” tem seu “tempo”. O dono da própria estrada precisa de algumas pontes, de algumas paradas. Ele precisa até mesmo de alguns atalhos. Ele não existe sozinho.

Se eu – apenas um ser – resolver plantar uma semente, e ela – apenas uma semente – resolver nascer, ele – o grande tempo – vai precisar entrar na história. Bendito ciclo das cooperações. Nesse enredo clássico do dividir o mesmo chão existencial, até mesmo o tempo precisa de alguém.

Se você puder, tome um café, um chá, ou um suco. Saboreie lentamente cada gole. Perceba as sensações, sinta o sabor, deixe o aroma entrar em sua intimidade mais profunda. Em cada partícula desse universo emocional-sensorial, o tempo deixa suas digitais. Quando terminar seu café, olhe para si mesmo e agradeça. Você tomou um café com o tempo!
Quanto tempo durou? Quem sabe...


“Viva o hoje. Porque o passado não volta, e, o futuro, você nem sabe se vem”.
(Frase escrita no muro de uma faculdade, em São Paulo)
Até mais...
Alan Brizotti

quarta-feira, 10 de junho de 2009

É preciso duvidar!


"Se você está tranquilo... é porque está mal informado" (frase escrita num muro em São Paulo)

O professor Alfonso López Quintás escreveu que "hoje, nem tudo está perdido, mas tudo está ameaçado". A suspeita domina. É difícil sentir-se completamente confortável na igreja de hoje. A "criatividade" duvidosa (por vezes, dolorosa) produz do ridículo ao bizarro em mísera meia hora de "culto".

Assumo: tô duvidando de tudo! Surge mais um apóstolo: duvido! Inventam mais uma "unção poderosa da sagrada fé": duvido! Acontece mais uma "micareta evangélica": duvido! Ocorre mais um surto de "milagromania": duvido! Outro "profeta" solta a "verborréia" (como diz o professor Gabriel Perissé), e eu duvido! Minha veia bereana fica alucinada toda vez que essas "coisas" ocorrem.

A salvação está na dúvida! Está na coragem de denunciar o óbvio. Na liberdade para ser do contra. Na alegria em não ser parte da mesma engrenagem tendenciosa do evangelicalismo de mercado da atualidade. Essa feira teológica é deprimente.

Por favor, chega daquelas fugas do tipo: "só devemos orar"; "não toque nos ungidos..."; "cada um tem um ministério..." Essas fugas são apenas as muletas que alguns usam para iludir as próprias pernas. Em nome do "ministério" surge cada palhaçada... Em nome dessa tal "unção", os púlpitos estão lotados de vigaristas da religiosidade. Em nome da "oração", a gente deixa a coisa correr... só Deus sabe para onde.

Um amigo meu, dos tempos de seminário, escreveu em sua página do Orkut: "Não me envergonho do evangelho, mas morro de vergonha dos evangélicos!" Por mais doloroso que seja, preciso concordar com ele. Duvido porque sei que o que vejo hoje não é digno do meu esfoço de fé.

Duvide! Não leve pra casa esse marmitex religioso apodrecido. Isso é o pecado da gula! Comer só por comer e beber só por beber, é matar de fome e sede nosso ser!

Aliás, fique à vontade pra duvidar desse texto também!

Até mais...
Alan Brizotti

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Bênção franciscana




Que Deus o abençoe com o desconforto

Diante de respostas fáceis, meias verdades e relacionamentos superficiais
Para que você possa viver intensamente no fundo de seu coração

Que Deus o abençoe com a raiva
Diante da injustiça, da opressão e da exploração de pessoas
Para que você possa trabalhar pela justiça, pela liberdade e pela paz

Que Deus o abençoe com lágrimas
Derramadas por quem sofre dor, rejeição, fome e guerra
Para que você possa estender a mão para confortá-los e
Transformar a dor deles em alegria

Que Deus o abençoe com suficiente loucura
Para acreditar que você pode fazer uma diferença no mundo
Para que você possa fazer o que os outros dizem não se poder fazer
Para trazer justiça e bondade a todos os nossos filhos e aos pobres

Amém
(extraído do livro "Oração, ela faz alguma diferença?" Philip Yancey. São Paulo: Editora Vida, 2007, p. 127)

Até mais...
Alan Brizotti

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