sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Máscaras: a transgressão da originalidade


“Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!” (Mt. 23.13)

A máscara é a Babel da alma. É a “confusão do rosto” (Ecl. 9.7). Sempre que alguém se parece com outro, costumamos dizer que se trata de um “sósia”. Na comédia grega “Anfitrião”, de Plauto, um deus pega as feições de um escravo chamado “sósia”, para cumprir sua missão. É o roubo da face. Esse “deus” tem atacado violentamente na atualidade.

Estamos vivendo uma época onde a máscara é não somente utilizada, mas encorajada, entusiasticamente aplaudida. A transgressão da originalidade virou moda. O mundo e a vida estão se tornando um perigoso baile à fantasia. Temos coragem de olhar no espelho? O rosto que vemos ainda é o nosso?

A palavra “hipócrita” significa: “homens da máscara”. Os atores do teatro grego utilizavam uma máscara para causar boa impressão. Os atores, ­ os “hipocrítes”,­ alegravam a multidão que freqüentava os antigos teatros. Eram os “homens da máscara”. Jesus usa a expressão para se referir aos escribas e fariseus: “hipócritas!”, ou seja, “homens da máscara”, “atores”. Gente que conspira contra a originalidade. Falsificadores do próprio olhar. Piratas da personalidade. Quantos ainda vivem sob o peso das máscaras?

Deus nos conhece. Davi, no Salmo 139.23, diz: “Sonda­-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova­-me e conhece os meus pensamentos”. O ato de Deus em nos sondar, é o ato de um perito em alma, que vasculha diligentemente nossa interioridade e adentra nos cantos mais escuros do nosso ser. Ele conhece o rosto por trás da máscara. Deus sabe o que contém a originalidade, qual é sua essência, seu princípio. Deus conhece o que a máscara oculta. Deus conhece os “homens da máscara”.

Quanto mais tempo ficamos com a máscara, mais aumenta nossa dependência dela. A tendência do homem é acreditar na realidade da máscara, e aí, adulterar a originalidade. Não é fácil sair da caverna e vir para a beleza da luz. Exige esforço, vontade, determinação, compromisso, amor à originalidade.

A máscara é o desespero que tornamos íntimo. Ela consegue a façanha de corromper o sorriso, censurar a lágrima e violentar o olhar. Ela envenena a nossa essência e adultera a legitimidade. Fuja do artifício da máscara, Deus é o dono da originalidade. O “ai de vós”, ainda persegue os hipócritas.

Até mais...

Alan Brizotti

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A qual deus os canalhas oram?


A cena é repugnante: três políticos numa sala (deveriam estar numa cela) "orando" em agradecimento pelas "bênçãos" (eufemismo para "propinas") que uma suposta divindade lhes concedeu. Na tal "oração", utilizam largamente os termos de um evangeliquês cada vez mais distante da realidade de uma vida cristã genuína: "Pai, somos gratos pela vida do fulano..." O que se ouve no jargão dominante foi disparado à vontade naquele momento "espiritualidade bandida".

Num de seus aforismos, Carlos Drummond de Andrade, fulminou: "o voto, arma do cidadão, dispara contra ele". Senti sangrar meu peito. Em minha casa, vendo estarrecido pela TV, em pleno horário nobre, três "representantes do povo", evangélicos, destruindo a confiança do voto, a pureza da oração e, se não bastasse isso, sujando o nome de Deus.

Ano que vem é ano de eleição. O que nos aguarda? Tenho até medo do que alguns púlpitos nos mostrarão. Quantos monstros tatuados de príncipes? Quantos demônios caricaturados de anjos? Quantos alimentarão essa bandidagem "sagrada" que insiste em manipular a mente infantil do povo? O brasileiro, e toda sua fama de "esperto", ainda não conseguiu aprender a identificar e neutralizar esses ladrões de sonhos. Eles roubam nossas esperanças e pintam de roxo o "verde louro dessa flâmula".

A qual deus os canalhas oram? Tenho certeza absoluta que não é ao Deus da Bíblia! O Deus das Escrituras não é Deus de engano, de falcatrua, de politicagens, nem de indecências. Ele não têm falhas de caráter - é Santo! Esses pilantras maquiados com a tinta falsa do evangelicalismo safado oram ao deus que habita suas almas fétidas: o dinheiro, Mamón! São escravos da moeda. Filhos espúrios do belo. Anátemas. Condenados ao próprio surto megalomaníaco de poder.

A você que ainda sente alguma repugnância, insisto, rogo, clamo: não vote por conveniência. Não vote sem empreender uma pesquisa meticulosa da vida, e não da fala. Não vote por "indicações", o Brasil do QI (no popular, "Quem Indica") não é digno de ser a nossa pátria amada. Não vote por cabrestos, sejam eles políticos ou religiosos. Não eleja pequenos Lúciferes.

Quando for às urnas, leve consigo o rosto sofrido dos oprimidos. A dor das famílias vítimas de enchentes. As mães solteiras. Os trabalhadores da madrugada. Por favor, não vote nos canalhas que se escondem sob o manto traiçoeiro da doçura. Shakespeare dizia: "O indivíduo pode sorrir, sorrir, e ser um vilão". Não vote sem alma.

Indignado, assino!



Alan Brizotti

sábado, 28 de novembro de 2009

Eu já vi Deus


É verdade: eu já vi Deus!

Foi quando meu filho nasceu. Jamais esquecerei a encantadora mistura de emoções, o mosaico de sentimentos, a sutil construção do êxtase. Cada instante que antecedeu seu nascimento foi vivido com uma intensidade deliciosamente assustadora. Aquelas cenas ainda dançam em minha memória, ainda marcam a retina da minha alma. Eu estava lá, na sala de parto, na estação da vida onde meu filho chegaria.

Eu vi o rosto de Deus quando mirei pela primeira vez a face do meu filhinho. Aquele pequeno ser, frágil, indefeso, vulnerável, olhou-me e cativou-me. Levou-me a alma. Passei a prestar mais atenção ao encanto do que se esconde num olhar. Fechei os olhos e orei: "Deus, que eu viva a tal ponto a tua Palavra, que esse menino faça a escolha feliz de servir ao Deus de seu pai". O rosto do meu filho, em sua inocência plena, revelou-me a face do Pai.

Eu vi o coração de Deus quando segurei a mãozinha delicada do meu bebê. Eu nem o conhecia ainda, mas já o amava. Ele, tão importante para mim - seu desconhecido pai - eu, grotescamente segurando-o, com o coração numa deliciosa taquicardia, apenas tentava conter intrusas lágrimas que queriam bagunçar meu rosto. Quem pode detê-las? Deixei que rolassem...

Eu vi Deus na feminilidade magistral de minha amada esposa. Exausta após a batalha para mostrar o mundo ao nosso pequeno, estava ainda mais bela, mais humana, mais mulher. Em seu cansaço, o privilégio de ter escrito mais um nome na página da existência. Seu troféu e seu fardo: mãe! Os rabinos costumam dizer que "ser mãe é fazer a mais difícil de todas as escolhas: andar com o coração fora do corpo".

Nosso filho - Eduardo - hoje tem quatro anos. Ainda vejo Deus quando ele sorri, chora, brinca, faz birra, luta para entender o mundo adulto e sua chatice do "não pode". Também vejo a mim e a minha esposa. Nosso filho é o melhor de mim com o melhor dela. É a arte que Deus fez com nossas misturas e deu-nos para amar. Vejo Deus quando meu filho dorme. Quando acorda e diz: "Bom dia, papai!" Respondo com a alma em cada letra: "Bom dia, filhinho!" Aliás, "Bom" é o sobrenome de Deus.

É, eu já vi Deus....


Até mais...

Alan Brizotti

sábado, 21 de novembro de 2009

Somos gratos pela dor?


“Quem não foi ferido, zomba de cicatrizes”. (William Shakespeare)

Poucos são os que têm coragem de aprender com a dor. A sociedade moderna conspira contra qualquer tipo de dor. Ao menor sinal dela, temos um impressionante número de remédios para silenciá-la. Falta-nos o aprendizado que vem do gemido. Duas guerras mundiais, imagens bizarras, grotescas, doenças como “heranças” de nossas peripécias científicas, e, mesmo assim, ainda não paramos para ouvir os alarmes dessa professora do existir.

As lições da dor são as mais incríveis e intensas. Com a crise, aprendemos a dolorosa lição do limite: não somos perfeitos! Temos a consciência de que não é o fato de cobrar de mim o desempenho industrial de uma máquina que me transformará num ser robotizado. Preciso aprender a escutar o grito abafado do meu corpo clamando por uma noite de sono, um abraço ou um pedaço de pão.

Com a dor, aprendemos a amarga lição da decepção: nem todo mundo é digno de minha confiança. Serei traído – se não pelos outros, por mim mesmo – terei sempre de lembrar do conselho de Sócrates: “sê fiel a ti mesmo, e não poderás ser falso com ninguém”. Decepções ensinam a preservação dos que merecem um lugar em meu carinho. Ensinam que preciso fazer uma leitura humana que vá além das faces propostas, configuradas e belas. Ensinam o quanto é preciso um amigo.

Com a dor, aprendemos a sagrada libertação das verdades da alma: os grandes poetas, artistas, músicos, libertavam-se em tempos de crise. Atormentados pela dor produziram pérolas da interioridade artística. Poesias tinham como matéria-prima as lágrimas e os olhos vermelhos. Pinturas e esculturas nasceram após noites monstruosas de delírio e solidão. Músicas esplêndidas surgiram de soluços inexprimíveis. Ideias fascinantes foram produtos de indivíduos à beira de um colapso nervoso. A lagarta precede a borboleta fascinante.

Águias que voam também precisam pousar. Quando assimilamos as lições magníficas da dor, entendemos o chão do pouso não mais como o terreno frio das prostrações e frustrações, mas como o lugar maravilhoso do descanso. Em cada novo bater de asas, incríveis sensações. Novos horizontes se abrem para os que entendem que voar é sempre arriscado. Mas também é apaixonante!

Revolucionar a dor é sorrir do próprio fracasso. É enxugar as lágrimas, respirar fundo. Levantar-se do chão da inércia. Dizer a si mesmo que a história se faz caminhando, cruz-ando fronteiras. É torcer o pescoço da melancolia. Espancar a autocomiseração. É compreender o jogo da vida – e surpreendê-la. Poder dominar as garras da angústia e entoar o hino dos humanos.

Depois das tempestades, o ar é mais puro. Depois da longa noite, a manhã invade o calendário. Depois da dor, o abraço quente da certeza feliz de que é bom começar de novo. Agradeça às suas dores, pois, em cada uma delas, somos vence-dores!

“A dor é a marca da mortalidade”. (Dr. Paul Brand)

Até mais...

Alan Brizotti

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

No dia em que eu temer...


"Até quando, ó Senhor ? Esquecer-te-ás de mim para sempre ? Até quando esconderás de mim o teu rosto ?" ( Sl. 13.1 )

Temor não é o medo de Deus, é o medo de sua ausência. O verso do Salmo de Davi é cheio de dor. É repleto de uma angústia que insiste em pintar de roxo as telas da existência. Há dias em que até Deus parece ausente. Nesses momentos de dor a gente se solidariza com as páginas molhadas de lágrimas. O gemido passa a ser íntimo, habita nossas entranhas.

A Bíblia é repleta de gente assim. É a sofrida Ana que luta com as palavras, mas perde a batalha - emite apenas gemidos. É José vivendo a terrível experiência de ser vendido, negociado como mercadoria pelos próprios irmãos - a família perde o encanto. Neemias que ouve o relato triste de que sua terra natal vive da vergonha e do caos - o passado de glória se reduz a um monturo de entulhos. Davi que chega ao ponto de desabafar: "Até quando ?"
Fernando Pessoa, poeta português, certa vez escreveu: "Minha alma partiu-se como um vaso vazio. Caiu das mãos da criada descuidada". A noite escura da vida parece ser muito mais longa do que o dia. Entretanto, o dia brilha, o sol não tira férias. Não existe noite eterna enquanto vivermos. O sol sempre rompe as trevas e vence. Mesmo nos dias em que a tempestade pinta o céu de um cinza tenebroso, o manto azul sempre surge. A cadência da vida é feita assim, uma nuvem hoje, sol amanhã. Inverno, verão. A constante dança das alternâncias.

Ana aprendeu essa lição e o sorriso de Deus a brindou com um filho. José classificou sua dor como providência divina: "...conservação da vida" (Gn.45.5). Neemias usou todo seu potencial de liderança e transformou a tragédia de sua cidade natal em uma tremenda história de renovação. Davi termina o Salmo 13 assim: "Cantarei ao Senhor, pois me tem feito muito bem". Talvez, nosso grande erro seja não ter essa percepção de que Deus é o supremo guia de nossa história. Não precisamos ser viciados em triunfos, às vezes, Deus se esconde na feiura da crise.

Como disse o poeta John Donne: "Assim como me deste um arrependimento do qual não me arrependo, dá-me, ó Senhor, um temor que eu não precise temer". Que assim seja !

Até mais...

Alan Brizotti

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O mal de Procusto


A terrível doença dos que não suportam as diferenças

Procusto, segundo a mitologia grega, era um famoso salteador que agia entre Mégara e Atenas. Atacava os viajantes, despojava-os de seus bens e submetia-os a cruel suplício. Forçava-os a se deitarem em um leito que nunca se ajustava ao seu tamanho. Cortava as pernas dos que excediam a medida e, por meio de cordas, esticava os que não a atingiam. Ficou conhecido como "aquele que estende". Essa faceta trágica por trás de uma "hospitalidade" ilusória ainda é encontrada em muita gente na conturbada atualidade.

O mal de Procusto é encontrado nos esforços para anular todas as diferenças. É preciso entender que existem diferenças que podem e precisam ser, equilibradamente, celebradas. Infelizmente, grande parte da igreja hodierna carrega neuroses em relação ao diferente. É comum encontrarmos pessoas estigmatizadas por suas diferenças: mães solteiras, viúvas, pobres, ou até mesmo, as diferenças geradas pelas guerras das denominações, o conflito imposto pelos adeptos de "novas" visões, das teologias asfixiantes do legalismo. Diferenças que geraram traumas, marcas profundas, feridas na alma.

A base para a celebração das diferenças está no respeito, na ética que eleva o outro e o recebe como amigo na alma. Existem diferenças fundamentais que precisam ser combatidas por causa do mal que trazem, como por exemplo, a mentalidade racista, preconceituosa, os desvios de caráter que podem comprometer a saúde da alma. Diferenças letais. Não são essas diferenças doentias que quero abordar, mas as sadias, aquelas que nos conferem singularidade, e por isso mesmo estão sendo novamente roubadas pelo mal de Procusto.

Procusto hoje é o radicalismo do "é assim que é, e pronto!" É a tendência de "esticar e cortar" o que destoa do meu modo de ver a vida até que o indivíduo tenha a cara que eu quero. Quando a igreja age assim, adultera o sentido bíblico do Cristo - ele celebrava as diferenças! Basta olhar o grupo de discípulos que ele escolhe: de trabalhadores a cobrador de impostos, gente das diferenças. Gente escolhida não por ser uma eterna igualdade da massa informe, mas por ter a capacidade de ser-quem-é.

Na atualidade, há uma gama enorme de pessoas marcadas, gente com uma história de dor pra contar. Essas pessoas foram à igreja em busca de abrigo e descanso para a alma, mas encontraram a terrível cama de ferro do legalismo e o Procusto das teologias ditatoriais. Deus não instituiu uma máfia eclesiástica, Ele instituiu uma igreja - gente simples celebrando as diferenças em amor.

A igreja é feita das diferenças. Famílias diferentes, de lugares diferentes, com problemas diferentes - ninguém é igual. O que precisamos aprender com Cristo - o Mestre da sociabilidade - é a virtude de enxergar o outro como irmão e ajudá-lo a crescer independentemente de sua formação, posição social (o lixo das diferenças de classe) ou a cor da pele. A igreja pode celebrar as diferenças porque Cristo as celebra.

Procusto, segundo a mitologia, foi morto por Teseu, que infligiu-lhe o mesmo martírio que ele infligia às pessoas. O que aprendemos aqui é que a "Lei da Semeadura" (o que plantarmos, colheremos) também se aplica a esse comportamento. Aqueles que atropelam as diferenças serão atropelados por elas mais tarde.

Que Deus nos ajude a celebrar diferenças, a "suportar uns aos outros em amor" (Ef.4.2), e crescer em unidade, intimidade e carisma. Somente assim poderemos ganhar as nações para o abraço de Cristo.
Até mais...

Alan Brizotti

domingo, 8 de novembro de 2009

Esperando em Deus na sociedade da pressa


“Quem espera por algo que já tem?” (Rm. 8.24)

Um poeta disse: “Esperar é o tormento do desejo”. Se existe algo difícil de suportar é a espera. Ela trabalha junto com o vulcão da ansiedade, com o desespero do tempo, com a angústia da expectativa. Não é fácil viver uma espera. Isso exige grande dose de paciência, compromisso, determinação. Acredito que o esperar é um dos grandes desafios do homem do século XXI, pois a síndrome do imediatismo tem atropelado os sonhos de muita gente. Vivemos na sociedade da pressa.

Qual seria a dor de uma espera? A realidade, a insistente demora do relógio ou a desconfiança? Talvez, um pouco disso tudo e uma pitada de pessimismo que sempre acompanha nossas aventuras pelos vales do desconhecido. Observe como as pessoas encaram a espera. Reféns da ilusão cronológica, alguns inventam um jogo novo, outros falam sozinhos, folheiam qualquer papel que contenha algo escrito, comem desesperadamente, olham compulsivamente para o relógio, andam de um lado para o outro, dilaceram as próprias unhas, assistem a qualquer tipo de programa televisivo...

Por outro lado, a dimensão do “esperar no Senhor”, implica em uma nova visão da própria espera. Ela não vem com a ansiedade porque o próprio Cristo nos ensinou a lançar sobre ele todas as nossas ansiedades (I Pe. 5.7); não carecemos de meios mirabolantes de distração pois o tempo não tem mais a face cruel de um “carcereiro das emoções”, mas agora, é apenas parte do próprio trabalho de Deus: “É ele quem muda os tempos e as horas” (Dn. 2.21). Não precisamos mais do desespero de falar sozinhos, pois a veia da comunicação está aberta e plena de possibilidades: “Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim” (Lc. 18.38).

Quando nossa mente se abre para essa dimensão, o esperar se torna uma dádiva pois, cada minuto se torna experiência, cada pequeno espetáculo da graça um mosaico, um memorial da fé, um presente do Eterno. Deus nos educa nessa espera bendita em que aprendemos que não é o tempo que teima em nos desafiar, mas Deus, o Senhor absoluto do tempo é quem nos leva ao encontro das grandes virtudes da fé. O tempo é parte fundamental da pedagogia de Deus.

Minha oração é: “Senhor, quero aprender a esperar em ti; aprender que a demora não significa esquecimento, mas providência, instrução, libertação das garras da sociedade da pressa. Quero aprender a observar cada uma das maravilhas que teu amor ministra a cada minuto”.

Apocalipse 22.12 é perfeito: “Eis que venho sem demora”. Jesus tira a demora da espera, para que descansemos em sua paz, na segurança de seu retorno!


Até mais... (sem pressa)

Alan Brizotti

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Como está o seu olhar?


“Com os ouvidos eu ouvira falar de ti, mas agora te veem os meus olhos”. (Jó 42. 5)

Um poeta disse: “Se eu morrer, morre comigo certo modo de ver”. Costumamos banalizar o olhar. Por causa dessa banalização, acabamos “olhando sem olhar”. Acabamos “vendo não vendo”. Todos os dias olhamos as pessoas de nossa família, mas será que ainda conseguimos vê-las? A rotina é a cegueira dos que acostumaram a olhar sem ver.

Costumamos levantar pela manhã e olhar no espelho, mas muito raramente, pensamos no próprio rosto. De tanto olhar, já não vemos. O costume mancha a visão, diminui sua intensidade. Saímos pela mesma porta, tomamos o mesmo ônibus, trabalhamos no mesmo escritório, mas perdemos o espetáculo da vida.

Quando saímos à rua com uma criança, o que acontece é surpreendente! A criança vê tudo. Ela consegue ver o cachorro todas as vezes em que aparece. Ela vê as pessoas, os carros, os brinquedos, vê o que o mundo adulto atropela na loucura dos homens. Vê sem a banalidade adulta. Sem o pecado do empobrecimento do cotidiano. Sem a perda do encanto.

Precisamos restaurar o olhar nosso de cada dia. Pais precisam olhar novamente os seus filhos e despertar para o milagre de suas vidas. Casais precisam redescobrir o olhar apaixonado que viu estrelas e pássaros, que bailou à luz do luar. Pastores precisam olhar para suas ovelhas e amar com toda a intensidade que esse sentimento permite. A luta contra o mal da indiferença começa com a cura do olhar, um olhar cheio de espera, interesse pelo outro, carisma. Olhar curado é olhar que se oferece como cidade de refúgio, porto seguro, festa de amor pra quem está no luto da rotina e do marasmo.

Jesus olhava as multidões. Ele via as pessoas. Precisamos aprender com o dono do olhar mais penetrante que a história já viu. O olhar banalizado é a pérola jogada aos porcos, é a dádiva esquecida, é a vitrine espatifada, a dor de uma cegueira muito mais cruel porque é produto de uma alma cega. Aliás, há cegos que enxergam muito mais do que os que ainda têm visão. Ver, não é fruto apenas do que os nossos olhos podem atingir, mas daquilo que as nossas almas alcançam. É nunca perder a luz, pois como disse Jesus: "Os olhos são a lâmpada do corpo" (Mt. 6. 23).

Qual é o seu “certo modo de ver?” Deus quer curar nosso olhar. Seu desejo é de que ele seja o fruto de uma espiritualidade mais nobre, uma generosidade que não se esquece. Que nossos olhos não sejam cobertos pela poeira da banalidade hodierna.

Que o colírio da Palavra de Deus esteja sempre lubrificando o olhar nosso de cada dia.


Até mais...

Alan Brizotti

O princípio de Jó


“...Ainda conservas a tua integridade?” (Jó 2.9)

Um homem num leito de hospital, desenganado, com apenas alguns dias de vida. O câncer, já em metástase, cumpre sua cruel missão: “Eu odeio Deus!” bradou com tamanha raiva que seus olhos vestiram um vermelho tenebroso.

Uma senhora judia, sobrevivente de um campo de concentração nazista, quando perguntada sobre a existência de Deus, replicou: “Se existiu Auschwitz não pode existir Deus”.

Um renomado diretor teatral, num programa de entrevistas na TV aberta disse: “Deus é a tragédia otimista”.

Retratos do caos da alma em dias de pós-­modernidade. À luz da mulher de Jó, o homem pós­moderno grita: “... amaldiçoa teu Deus e morre!” Almas em revolta. Conforme os dias passam, a humanidade segue alimentando sua ira contra Deus. O sentimento que impera hoje não é o amor a Deus ou o medo de Deus, mas a indiferença. Esses sentimentos contra o Eterno vêm tatuados de agonia, estigmatizados com a afirmação: “Não precisamos de Deus”. O medo do homem de hoje é o medo de prestar contas. É a presença marcante do Salmo 14.

O sentimento de Jó ainda vale a pena. Jó entra para a história não somente por suportar a tribulação, nem tampouco por não blasfemar. Ele entra para a história por amar a Deus, até mesmo em sua pior dor. Pelo feito incrível de ter transformado sua provação numa glória para Deus. Ele enxerga Deus no cerne de sua crise: “... recebemos o bem de Deus, e não receberemos o mal?” (Jó 2.10). Consegue distinguir os rastros de Deus no ciclone que destruía seus sonhos. A fé e o amor de Jó se transformaram num fantástico testemunho para as gerações, no poema de Deus na história, na bela investigação sobre a condição humana.

Um dos primeiros bispos da história da igreja, Inácio de Antioquia, sentindo que seria martirizado por causa de sua fé, escreveu uma carta para a sua igreja: “Sou trigo de Deus, e os dentes das feras hão de me moer para que eu seja apresentado como vivo pão de Cristo”.
O lema missionário da poderosa comunidade dos Morávios, surgiu quando dois jovens se venderam como escravos para entrarem numa determinada região a fim de pregarem o Evangelho: “O cordeiro de Deus é digno!” Retratos dos que seguem o “princípio de Jó”.

Saramago à parte, prefiro Deus!


Até mais...

Alan Brizotti.

sábado, 24 de outubro de 2009

Ruth Doris Lemos: simplesmente exemplo!


Cheguei ao IBAD (Instituto Bíblico das Assembleias de Deus), em Pindamonhangaba, São Paulo, em 1997, prestes a completar 18 anos. Nem compreendia direito o que estava acontecendo em minha vida. Apenas entendia a importância de estar no seminário teológico mais famoso das Assembleias de Deus no Brasil. Ainda lembro bem daquela sensação. Olhei bem para aquela construção à época, inacabada. Meu quarto, os companheiros, o refeitório, sala de oração, biblioteca. Quem já passou pelo IBAD jamais esquece.

Tenho a honra de poder afirmar: fui aluno da Missionária Ruth Doris Lemos. Lembro das matérias que mais marcaram: hermenêutica, missões, exegese. Ela sentava e, como os grandes mestres fazem, encantava. Numa das aulas, a irmã Doris pediu uma redação sobre Pedro e sua mensagem no dia do derramamento do Espírito. Escrevi e, mudei de vida! Ela, ao ler minha redação, jamais esquecerei aquele momento, olhou fundo em meus olhos e disse: "Você tem a mente de um escritor, não pare de escrever".

Não consegui dormir naquela noite. A fala da irmã Doris se configurou num poderoso chamado do Espírito. Os anos passaram e, hoje, estou no quarto livro escrito, e dois em fase de acabamento. Ainda guardo meus cadernos do tempo de IBAD. Hoje, peguei alguns e folheando, encontrei as matérias que a irmã Doris ministrou. Aulas que marcaram profundamente minha vida.

Sou imensamente grato a Deus pelo privilégio de ter sido aluno da irmã Doris e do Pastor Kolenda. Mentores que me inspiram a prosseguir. Num mundo tão carente de referenciais, tenho a alegria de poder afirmar: Pastor João Kolenda Lemos e Missionária Ruth Doris Lemos têm imensa importância em minha história.

Obrigado irmã Doris! Seu legado é eterno. Como disse Rubem Alves: "Quando se ama um mestre, procura-se saber o que ele sabe, pois sabendo o que ele sabe, temos uma maneira de estar sempre com ele".

Alan Brizotti
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